Há decisões de governo que transcendem o campo da política e entram no território da ética. A inclusão do Trastuzumabe Entansina — um medicamento de ponta no tratamento do câncer de mama — na rede pública de saúde é uma dessas decisões. O gesto parece simples: oferecer de graça, pelo SUS, um remédio que custa mais de R$ 11 mil por frasco. Mas por trás desse anúncio há um embate silencioso entre economia, ciência e humanidade.
O Trastuzumabe Entansina é um dos chamados “anticorpos conjugados”, uma nova geração de medicamentos que combina alta precisão com alto custo. Ele é indicado para mulheres que, mesmo após a quimioterapia, continuam a apresentar sinais da doença — um dos momentos mais delicados da luta contra o câncer.
Na prática, o Estado está escolhendo investir na fronteira da medicina moderna, onde cada dose pode significar tempo, esperança e dignidade. Mas também onde cada decisão pesa bilhões aos cofres públicos.
O câncer de mama é o tipo que mais mata mulheres no Brasil. Só em 2024, foram mais de 19 mil vidas perdidas. Ao incorporar o medicamento, o governo tenta corrigir uma desigualdade antiga: a de quem pode pagar pela sobrevida e quem não pode.
Mas a questão que paira é outra: até onde vai o dever do Estado de sustentar tratamentos ultracaros em um sistema de saúde universal? O gesto humanitário pode, paradoxalmente, expor a fragilidade financeira do próprio SUS.
O remédio em questão é fruto de tecnologia suíça. Seu custo elevado reflete não apenas inovação científica, mas também monopólios farmacêuticos e o peso das patentes. No Brasil, a dependência de importações médicas é um problema estrutural — e cada nova droga incluída no SUS reforça esse dilema.
Ainda assim, recusar o acesso seria cruel. O câncer não espera pela queda de preços nem por acordos comerciais. Cada dia de atraso é uma sentença.
Há também um dado político. Em um país dividido, o anúncio funciona como um símbolo: o governo se coloca como protetor da vida, mesmo sob o custo da austeridade fiscal. É o tipo de gesto que humaniza a política, mas também a tensiona.
No entanto, essa conquista carrega um alerta. A incorporação de tecnologias caras sem uma estratégia de produção nacional perpetua a dependência e ameaça a sustentabilidade do sistema.
Se o Brasil quer garantir acesso a medicamentos modernos, precisa mais do que importar soluções — deve produzi-las. É um desafio científico e industrial, mas também soberano.
O caso do Trastuzumabe Entansina evidencia algo essencial: o SUS é mais do que um sistema de saúde; é uma promessa civilizatória. E promessas assim custam caro.
Por outro lado, o preço da omissão é incalculável. O que se economiza em planilhas, perde-se em vidas, histórias e futuros possíveis.
Talvez o verdadeiro valor de um país esteja em onde ele decide gastar seu dinheiro — se em muros ou em remédios, se em estatísticas ou em pessoas.
O Trastuzumabe Entansina é, portanto, mais que um fármaco. É um espelho. Ele reflete o que o Brasil quer ser: um país que mede seu progresso não apenas em PIB, mas em compassos de humanidade.
E, nesse reflexo, o que se vê é a difícil arte de equilibrar contas públicas e consciência moral. Uma equação que, no fim das contas, sempre tem o mesmo denominador: a vida.

