Há algo de curioso no fato de um filme chamado O Agente Secreto estar no centro de uma discussão sobre transparência. Seria apenas coincidência ou uma ironia digna de roteiro? A nova obra de Kleber Mendonça Filho, aclamada em Cannes e escolhida para representar o Brasil no Oscar 2026, reacende uma velha questão: quem deve pagar pela arte — e sob quais regras?
Com um orçamento de R$ 27 milhões, o longa recebeu R$ 7,5 milhões de recursos públicos, mas fora do caminho mais conhecido: a Lei Rouanet. Em vez dela, o dinheiro veio do Fundo Setorial do Audiovisual (FSA), um instrumento menos visível para o público e, segundo críticos, mais difícil de rastrear.
O detalhe que gerou ruído não é apenas o valor, mas o processo. Por que evitar a Lei Rouanet, que é pública, transparente e amplamente fiscalizada? O uso do FSA, embora legal, foi visto como uma manobra para reduzir o escrutínio sobre como os recursos foram aplicados.
Mendonça Filho, conhecido por obras que questionam estruturas de poder, agora se vê do outro lado da narrativa — como alvo de desconfiança. O paradoxo não passou despercebido pelos críticos, que apontam a ironia de um cineasta que sempre cobrou coerência política agora precisar defendê-la.
O diretor, por sua vez, argumenta que o FSA é um mecanismo legítimo, projetado justamente para fomentar produções nacionais com potencial internacional. E O Agente Secreto se encaixa perfeitamente nesse perfil: é uma coprodução com França, Alemanha e Holanda, e já circula por festivais europeus.
O problema é que, no Brasil, o debate sobre financiamento cultural raramente é técnico — ele é moral. O que está em jogo não é apenas a contabilidade, mas a percepção de quem “merece” usar o dinheiro público.
A escolha de abrir mão de R$ 4 milhões destinados à distribuição nacional também gerou polêmica. A justificativa seria uma “estratégia própria de lançamento”, mas muitos viram nisso um erro estratégico — ou, pior, um sinal de desinteresse em democratizar o acesso ao filme dentro do país que o financiou.
Há, portanto, dois filmes sendo exibidos em paralelo: um nas telas e outro nos bastidores da política cultural. O primeiro busca prêmios; o segundo, respostas.
O caso expõe a fragilidade das políticas de fomento: se os critérios são pouco claros, qualquer sucesso vira suspeito; se o artista é engajado, a crítica dobra. É o preço da opacidade institucional, que transforma um debate sobre gestão pública em guerra ideológica.
O cinema brasileiro, aliás, vive um dilema antigo. Quer ser global, mas depende de verbas locais. Quer liberdade criativa, mas precisa justificar cada centavo gasto. É um equilíbrio instável, onde o artista é constantemente cobrado a provar sua pureza ética antes mesmo de mostrar sua obra.
Nesse contexto, O Agente Secreto torna-se mais que um filme: é um espelho das contradições de um país que valoriza a arte, mas desconfia de quem a faz.
No fundo, o que incomoda não é o gasto, mas a sensação de que o público não tem acesso aos bastidores dessa máquina. A transparência, nesse caso, seria o verdadeiro ato revolucionário.
Talvez a pergunta mais importante não seja se Kleber Mendonça usou o dinheiro de forma correta, mas por que, em 2025, ainda não existe um sistema que torne essa resposta óbvia.
Enquanto isso, o filme avança rumo ao Oscar. E o debate, inevitavelmente, continua: quem é, afinal, o verdadeiro agente secreto — o cineasta, o Estado ou o sistema que permite que tudo isso aconteça sem que ninguém saiba exatamente como?

