É apenas uma fofoca — ou o retrato de algo maior no universo da música popular brasileira?
A nova polêmica entre Maiara & Maraisa, Simaria e Simone Mendes reacende uma antiga questão: o que está realmente em jogo quando artistas se enfrentam em público?
Durante um programa de TV, a dupla foi questionada sobre o rumor de que Simaria teria as chamado de “bregas”.
O episódio, que parecia esquecido, voltou à tona como uma fagulha em terreno seco.
Horas depois, Simone curtiu um comentário defendendo a irmã e prometendo o retorno da “Simaria do Velho Testamento” — a versão mais afiada, impulsiva e imprevisível da cantora.
A internet, claro, fez o resto: transformou a curtida em manchete e o comentário em guerra simbólica.
Mas há mais do que vaidade em disputa.
O episódio expõe a transição do sertanejo feminino de gênero musical para arena de poder, onde imagem, autenticidade e narrativa valem tanto quanto voz e melodia.
Maiara e Maraisa representam a geração da profissionalização — artistas estrategistas, com carreira sólida e discurso de superação.
Simaria, por outro lado, encarna o arquétipo da mulher intensa, orgulhosa e sem freios.
O contraste explica por que o público não apenas escolhe um lado, mas se identifica emocionalmente com ele.
O termo “brega”, nesse contexto, deixa de ser ofensa estética e vira marcador de status cultural.
Chamar alguém de “brega” é tocar na fronteira entre o popular e o elitizado — um embate antigo da música brasileira.
Desde os tempos de Waldick Soriano, o “brega” foi o rótulo usado para deslegitimar o gosto das massas.
E é justamente essa origem que torna a palavra tão explosiva quando dita (ou insinuada) entre artistas do mesmo segmento.
A curtida de Simone não foi acidental: foi gesto político, ainda que emocional.
Numa era em que os likes substituem declarações, ela vale mais do que uma entrevista.
O público, por sua vez, consome a tensão como se fosse parte do show.
E, de certa forma, é — o sertanejo contemporâneo se alimenta de narrativas pessoais que humanizam seus ídolos e os mantêm em alta rotação nas redes.
Ao reavivar a figura da “Simaria do Velho Testamento”, os fãs celebram a mulher que não se cala — e desafiam o discurso domesticado das duplas femininas mais recentes.
É o embate entre o instinto e a estratégia, entre o palco e o feed.
Talvez ninguém tenha chamado ninguém de “brega” de fato.
Mas a reação coletiva mostra que o público precisa dessas tensões para reafirmar o drama que sustenta a fama.
No fim, a fofoca é apenas o formato popular de uma disputa muito mais sofisticada: a de quem dita o que é moderno, legítimo e “aceitável” dentro do sertanejo.
E, como sempre, o palco é o menor dos campos de batalha — o verdadeiro embate acontece nos bastidores, nos comentários e nos algoritmos.

