É possível que a aplicação rígida da lei acabe matando justamente aquilo que deveria proteger?
O episódio em Nova Trento, onde uma família perdeu mais de 100 quilos de queijos artesanais após uma fiscalização motivada por denúncia anônima, lança essa pergunta incômoda.
De um lado, o Estado cumprindo o papel de guardião da saúde pública. Do outro, produtores rurais que afirmam seguir padrões de higiene e que estavam em processo de legalização.
A cena do Sítio Terra Santa — prateleiras esvaziadas, queijos descartados — é mais do que uma anedota local. É um retrato da colisão entre burocracia e tradição.
O queijo artesanal, no Brasil, ocupa um lugar paradoxal. É símbolo cultural, patrimônio gastronômico, mas ao mesmo tempo alvo de regulamentações quase intransponíveis.
Não se trata apenas de normas sanitárias. É um sistema jurídico e administrativo que, em vez de orientar, frequentemente pune antes mesmo de incluir.
A família de Nova Trento descreveu a ação como “crueldade”. Palavras fortes, mas reveladoras do abismo de percepção entre fiscal e produtor.
Para os fiscais, havia um risco potencial. Para os produtores, havia apenas trabalho, cuidado e expectativa de regularização.
O conflito expõe um dilema central: a lei deve ser cega às circunstâncias ou capaz de enxergar nuances humanas?
Enquanto isso, o mercado clama por produtos autênticos. Consumidores valorizam cada vez mais o artesanal, o regional, o não industrial.
Esse movimento contrasta com a lentidão das políticas públicas. A legislação muitas vezes foi desenhada para grandes indústrias, não para pequenos sítios familiares.
Quando normas uniformes são aplicadas sem mediação, quem perde não é apenas o produtor. É o consumidor, privado da diversidade cultural e alimentar.
A fiscalização rigorosa é necessária. Mas rigor sem diálogo pode se tornar autoritarismo.
Em vez de pontes, constroem-se muros. O resultado é um setor sufocado, vivendo entre a formalidade inalcançável e a clandestinidade arriscada.
Casos como o de Nova Trento poderiam ser tratados como oportunidades de ajuste, não como punições exemplares.
O desperdício de alimentos de qualidade, em plena crise de insegurança alimentar, também não deixa de ser um paradoxo moral.
O que deveria ser incentivo à regularização vira, na prática, desestímulo e desalento.
O terroir brasileiro — queijos, vinhos, embutidos, cachaças — depende da sobrevivência desses pequenos produtores.
A tragédia dos queijos de Nova Trento nos obriga a pensar: a lei está a serviço de quem? Da saúde coletiva ou da uniformidade burocrática?
Talvez o futuro do alimento artesanal no Brasil dependa de uma resposta honesta a essa questão.

