Um novo capítulo nas negociações do conflito entre Israel e Hamas surgiu nesta sexta-feira, quando o movimento palestino indicou estar disposto a liberar reféns e entregar a administração da Faixa de Gaza, mas condiciona essas ações à discussão de outros termos da proposta apresentada por Donald Trump.
Segundo comunicado de Hamas, o grupo aceita a “fórmula” do plano norte-americano para a libertação de prisioneiros, e estaria pronto a transferir o controle administrativo de Gaza para um órgão palestino independente (tecnocratas), desde que esse modelo seja implementado dentro de um consenso nacional palestino.
A posição de Hamas atende parcialmente à proposta de Trump, que prevê a devolução de reféns e a substituição do governo local em Gaza por uma autoridade de transição internacional ou neutra. Porém, o movimento ressalta que não está disposto a aceitar unilateralmente todos os termos sem negociação prévia.
Em seu comunicado, Hamas reafirma: “outros assuntos mencionados na proposta do presidente Trump relativos ao futuro da Faixa de Gaza e aos direitos inerentes do povo palestino […] são para ser debatidos dentro de um quadro nacional palestino abrangente” (foco em normas do direito internacional).
O plano de Trump, divulgado mais cedo, incluía entre suas disposições uma retirada gradual das tropas israelenses, suspensões das operações militares e a entrega da administração local a uma autoridade neutra, sem a presença de Hamas ou da Autoridade Palestina.
Uma das exigências mais sensíveis do plano é a deslegitimação política e desarmamento de Hamas — ponto que não é mencionado no posicionamento divulgado pelo grupo palestino nesta sexta. Essa omissão revela as resistências enfrentadas na negociação.
Além disso, o grupo pediu que decisões sobre questões estruturais de Gaza sejam tomadas em conjunto com outras facções palestinas, buscando um “consenso unânime” que respeite as resoluções internacionais e as aspirações nacionais do povo palestino.
Enquanto isso, Trump fixou prazo para resposta: ele determinou que Hamas aceite a proposta até domingo às 18h (horário de Washington), sob risco de “reações severas” caso não haja adesão completa. A pressão diplomática e militar foi intensificada nas últimas horas.
Autoridades israelenses já apoiaram a estrutura do plano, embora tenham acrescentado condições próprias. O primeiro-ministro Benjamin Netanyahu reforçou que aceitará os termos, desde que sejam respeitadas as prerrogativas de segurança de Israel.
Em discursos recentes, Netanyahu condicionou qualquer aceitação à garantia de que Gaza permaneça desmilitarizado, com Israel mantendo perímetro de segurança e supervisão sobre aspectos sensíveis mesmo após transição.
A complexidade maior das negociações está justamente na articulação desses múltiplos interesses: Hamas exige salvaguardas políticas, Israel impõe exigências de segurança, e os EUA buscam um acordo que pare o conflito e libere reféns.
Mediadores internacionais, especialmente Qatar e Egito, voltam a atuar como interlocutores entre as partes, tentando sugerir ajustes ao plano, garantir segurança para implementações iniciais e convencer Hamas a aceitar o texto.
Analistas veem a movimentação de Hamas como tentativa de preservar legitimidade local: ao transferir a administração, exigindo debates sobre soberania e preservando sua participação nas decisões estratégicas, não abre mão de influência residual.
Por outro lado, a decisão de acatar parcialmente os termos pode ser lida como sinal de fragilidade política e militar diante da contínua ofensiva israelense e da pressão internacional sobre o conflito.
A entrega administrativa de Gaza prevista no plano inclui a formação de um conselho tecnocrático, possivelmente sob supervisão internacional, e a retirada da autoridade de Hamas do controle direto sobre serviços civis e segurança local.
Ainda não está claro como seria feita essa transição prática. Por exemplo, quem garantiria a segurança nos primeiros dias? Quem monitoraria a entrega de serviços públicos? Esses pontos exigem acordos adicionais.
Além disso, o plano prevê que, dentro de 72 horas após aceitação pública, todos os reféns — vivos ou mortos — sejam devolvidos. Essa meta é ambiciosa e depende da cooperação logística e de confiança mútua.
No plano de Trump, após a liberação dos reféns, Israel liberaria prisioneiros palestinos e concederia amnistia parcial a membros de Hamas que renunciassem à violência ou deixassem Gaza.
A adesão plena também envolveria o envio imediato de ajuda humanitária, reconstrução de infraestrutura (saneamento, hospitais, eletricidade) e permissão irrestrita para organismos humanitários atuarem na região.
O cenário permanece tenso. Caso Hamas aceite formalmente com ressalvas, o processo negociado ainda passa por revisão de Israel e validação de mediadores. Se rejeitar, a escalada militar pode retornar com força total.
Independentemente do resultado imediato, essa movimentação marca um ponto de inflexão na guerra. A disposição de Hamas de flexibilizar sua posição reforça que a situação chegou a um momento em que acordos, ainda que frágeis, tornam-se inevitáveis.

