R$ 1,2 bilhão. Esse é o volume de recursos movimentados entre 2019 e 2025 pelo Sindicato Nacional dos Aposentados, Pensionistas e Idosos da Força Sindical (Sindnapi), segundo relatório do Coaf. O número impressiona, mas a pergunta que precisa ser feita é: como um sindicato de aposentados chega a cifras tão robustas?
A resposta está em camadas. De um lado, a legitimidade de representar milhões de beneficiários do INSS. De outro, a opacidade típica de estruturas que orbitam entre o público e o privado, onde fiscalização é sempre insuficiente.
O relatório aponta operações em espécie que somam R$ 6,5 milhões em seis anos. Em qualquer manual de compliance, transações em dinheiro vivo são sinal de alerta. No Brasil sindical, parecem ainda toleradas.
Não é apenas o montante que chama atenção, mas também o destino. Empresas ligadas a familiares de dirigentes receberam R$ 8,2 milhões no período. Coincidência ou padrão de aparelhamento?
Aqui se revela a dimensão política do escândalo. Frei Chico, irmão do presidente Lula, ocupa a vice-presidência da entidade. A conexão familiar adiciona combustível a um debate já inflamado: até que ponto sindicatos se transformaram em máquinas de poder paralelas ao Estado?
A morte de João Batista Inocentini, ex-presidente e personagem central dessa engrenagem, não encerrou a prática. Ao contrário, parece ter institucionalizado uma cultura de autobenefício e blindagem.
O Coaf, ao destacar a dificuldade de rastrear a origem dos recursos, expõe um problema mais profundo: a fragilidade das fronteiras entre o dinheiro sindical e o dinheiro público.
Em tese, sindicatos são financiados por contribuições voluntárias e associativas. Na prática, movimentam como conglomerados empresariais, sem a mesma transparência exigida de empresas listadas em bolsa.
A ausência de retorno por parte do Sindnapi ao ser questionado pela imprensa é reveladora. O silêncio, nesses casos, não é apenas omissão: é estratégia.
Para além do caso específico, há uma reflexão incômoda: o Brasil criou um ecossistema onde sindicatos, associações e fundações manejam cifras bilionárias sem contrapartida proporcional em fiscalização.
O argumento histórico da “defesa dos trabalhadores” se mistura, então, ao pragmatismo do poder e ao fluxo constante de dinheiro.
A narrativa oficial tende a tratar escândalos assim como desvios isolados. Mas a repetição — em diferentes sindicatos, federações e confederações — sugere uma estrutura.
O episódio do Sindnapi não é apenas sobre contabilidade suspeita. É sobre o entrelaçamento entre política, família e dinheiro, que cria zonas de sombra imunes a controles convencionais.
E nesse tabuleiro, quem perde não é apenas o aposentado que paga contribuição. É o pacto social que sustenta a confiança nas instituições.
Se um sindicato de idosos pode movimentar R$ 1,2 bilhão em silêncio quase absoluto, o que impede outras entidades de operar na mesma lógica?
O relatório do Coaf é, portanto, mais que um registro técnico. É um espelho desconfortável de como o país ainda normaliza estruturas bilionárias sem clareza de finalidade.
A questão não é apenas onde foi parar o dinheiro. A questão é: por que ainda aceitamos não saber?

