Uma tragédia vem ganhando destaque em São Paulo: três mortes foram confirmadas até o momento em consequência de intoxicação por metanol, enquanto outras vítimas permanecem internadas em Unidades de Terapia Intensiva (UTI) ou submetidas a hemodiálise. Há ainda relatos de casos que evoluíram com cegueira. O caso expõe riscos ocultos de bebidas adulteradas e mobiliza autoridades de saúde, polícia e vigilância sanitária.
As primeiras notificações apontam que o surto envolve bebidas alcoólicas possivelmente adulteradas com metanol, substância altamente tóxica e proibida em produtos de consumo humano. A investigação busca rastrear a origem das bebidas, mapear estabelecimentos envolvidos e acompanhar as vítimas para diagnóstico e tratamento apropriado.
Em São Bernardo do Campo, na região metropolitana de São Paulo, surgiram dois óbitos suspeitos vinculados ao surto. Um deles reflete o segundo falecimento em pouco tempo no município, o que intensificou o alerta local. Já na capital, registrou-se ao menos um caso confirmado de morte, elevando a gravidade do panorama.
A Prefeitura de São Paulo, via Coordenadoria de Vigilância em Saúde (Covisa), afirmou que monitora ativamente os casos. O município registrou ao menos 14 notificações suspeitas de intoxicação por metanol decorrente de consumo de bebida adulterada no ano corrente.
Entre as vítimas confirmadas em todo o estado, destaca-se um homem de 54 anos, morador da Mooca, que faleceu no dia 15 do mês após ingestão suspeita de substância adulterante em bebida alcoólica. Esse caso foi oficialmente reconhecido como provocado por metanol.
Além dos óbitos, outras pessoas acometidas relatam perdas visuais. Dois casos evoluíram com cegueira completa ou parcial, indicativo de dano ao nervo óptico ou estruturas visuais, consequência típica da intoxicação por metanol.
Vítimas em estado grave foram encaminhadas para UTI, com suporte ventilatório, e algumas submetidas a hemodiálise como tentativa de remover metabólitos tóxicos do organismo. Procedimentos emergenciais são utilizados para minimizar sequelas permanentes.
Os sintomas iniciais da intoxicação por metanol podem ser confundidos com mal-estar comum: náuseas, vômitos, tontura, dor de cabeça. Mas entre 6 e 24 horas pós consumo, surgem sinais mais alarmantes, como visão turva ou cegueira, dor abdominal e confusão mental.
O metanol metaboliza-se no organismo em formaldeído e ácido fórmico, compostos altamente nocivos. Em doses pequenas já pode provocar cegueira irreversível; em quantidades maiores, levar à falência múltipla de órgãos e morte.
Tecnologias terapêuticas incluem administração de fomepizol ou uso de etanol como antídoto competitivo, além de hemodiálise para tentar remover os metabólitos tóxicos. O diagnóstico rápido é fundamental para melhorar prognóstico.
Três bares na Grande São Paulo foram interditados pela Vigilância Sanitária nas operações recentes. Foram apreendidas mais de 800 garrafas de bebidas sem registro ou procedência comprovada, suspeitas de conter metanol.
Em um dos casos, o bar “Ministrão”, localizado nos Jardins, foi fechado após investigações. Apurações indicaram que o estabelecimento adquiriu bebidas de vendedores ambulantes sem nota fiscal. No bairro da Mooca, outro bar também foi fechado e bebidas encaminhadas para perícia.
O Ministério da Justiça e Segurança Pública determinou abertura de inquérito federal, com cooperação entre Polícias Federal e civil para rastrear distribuição e redes criminosas que possam estar vinculadas à adulteração de bebidas.
O governo federal, por meio do Comitê Técnico do Sistema de Alerta Rápido (SAR), em sessão extraordinária em 29 de setembro, emitiu alerta nacional e mobilizou órgãos federais, estaduais e municipais para atuação coordenada.
Autoridades orientam que consumidores fiquem atentos a sinais como rótulos borrados, lacres rompidos, preços muito baixos e a origem irregular das bebidas. Produtos com tais características devem ser evitados e denunciados.
Há suspeitas de que parte do metanol utilizado seja proveniente de importação clandestina e que organizações criminosas poderiam estar envolvidas na cadeia de adulteração para maximizar lucro com desvio de matéria-prima.
O surto de intoxicação por metanol em 2025 reforça que casos similares já ocorreram historicamente no mundo e no Brasil. Episódios como “o caso do metílico” na Espanha e a chamada “cachaça da morte” na Bahia ilustram consequências devastadoras da adulteração.
Especialistas em toxicologia advertem que diante da toxicidade elevada, mesmo volumes pequenos de metanol (em torno de 10 mL) podem causar cegueira permanente, e doses de 100 mL ou mais podem ser letais.
A rede hospitalar tem sido pressionada a identificar casos com rapidez e distinguir intoxicação por metanol de outras causas comuns de mal-estar. Protocolos específicos para diagnóstico e tratamento emergencial foram acionados.
Para além da resposta imediata, o episódio suscita demandas por políticas públicas mais rígidas de fiscalização, controle da importação e venda de bebidas, e combate a redes criminosas que operam no comércio paralelo.
Enquanto isso, familiares das vítimas clamam por transparência nas investigações e ressarcimento por danos. Em muitos casos, a cegueira ou sequelas permanentes implicam readequação de vida, trabalho e assistência especializada.
O surto permanece em investigação. Novas mortes podem ser confirmadas conforme exames toxicológicos avancem. O cenário impõe alerta persistente para consumidores, autoridades sanitárias e forças de segurança em todo o país.
A crise das bebidas adulteradas com metanol revela fragilidades institucionais e criminosas no mercado irregular. Rastrear responsabilidades e prevenir novos casos exigirá ação integrada entre saúde, segurança e sociedade civil.

