Um estudo publicado por pesquisadores da Coreia do Sul reacendeu debates ao sugerir uma possível ligação entre a aplicação de vacinas contra a Covid-19 e o aumento de diagnósticos de diferentes tipos de câncer, como pulmão, mama e próstata. A pesquisa, divulgada na revista Biomarker Research, despertou atenção mundial, mas também foi alvo de críticas de especialistas que a consideram alarmista e inconclusiva.
Os autores analisaram dados de saúde de aproximadamente 8,4 milhões de adultos entre 2021 e 2023, comparando taxas de incidência de câncer entre vacinados e não vacinados. Segundo o estudo, indivíduos imunizados apresentariam maior probabilidade de desenvolver certos tumores, com destaque para elevação de até 68% no risco de câncer de próstata.
Apesar da repercussão, a pesquisa não detalha mecanismos biológicos que explicariam como vacinas de mRNA ou cDNA poderiam interferir no surgimento dessas doenças. Essa ausência de explicações concretas levou oncologistas e imunologistas a reforçarem que não há provas científicas robustas que sustentem a hipótese levantada.
Um dos pontos citados pelos autores é que homens vacinados teriam maior suscetibilidade a câncer de estômago e pulmão, enquanto mulheres apresentariam riscos elevados para câncer de tireoide e colorretal. Já tumores de mama e colorretal também teriam índices mais altos em pessoas imunizadas, segundo os dados analisados.
A publicação sugere que a observação mais significativa ocorreu um ano após a aplicação de pelo menos uma dose da vacina, incluindo reforços. Contudo, críticos destacam que o resultado pode refletir diagnósticos já em andamento, sem necessariamente estabelecer causa direta com a imunização.
O Dr. Benjamin Mazer, professor assistente de patologia na Universidade Johns Hopkins, contestou duramente as conclusões. Segundo ele, “nenhum carcinógeno é capaz de provocar câncer de forma tão acelerada, já que as mutações levam tempo para se acumular”. Para o pesquisador, os dados levantados refletem diagnósticos médicos, não o surgimento instantâneo da doença.
Organizações como a Cancer Research UK reforçam que não existe “nenhuma boa evidência” que associe vacinas contra a Covid-19 ao aumento de câncer. Pelo contrário, destacam que tecnologias como o mRNA estão sendo usadas no desenvolvimento de imunizantes experimentais voltados justamente para a prevenção de diferentes tipos de tumor.
Ainda assim, a divulgação do estudo gerou repercussões políticas e sociais, principalmente em meio a grupos contrários à vacinação, que interpretaram os resultados como reforço a discursos críticos às campanhas de imunização em massa conduzidas durante a pandemia.
Nos últimos anos, rumores sobre supostos “cânceres turbo” associados às vacinas circularam em redes sociais, mas foram refutados por análises científicas internacionais. Acadêmicos enfatizam que a correlação entre imunização e tumores não se sustenta em evidências sólidas.
Outro ponto levantado é que, apesar de a pesquisa ter sido publicada em um periódico de prestígio, ela foi conduzida por especialistas em áreas não diretamente relacionadas ao estudo do câncer, como cirurgiões ortopédicos e médicos intensivistas. Isso gerou questionamentos sobre a metodologia aplicada.
Especialistas lembram ainda que efeitos adversos conhecidos das vacinas contra a Covid-19, como miocardite em casos raros, já foram amplamente estudados e documentados. Contudo, até o momento, nenhum dado consistente demonstrou ligação com aumento de risco oncológico.
O Escritório de Estatísticas Nacionais do Reino Unido já havia descartado a tese de que mortes em excesso registradas entre 2022 e 2023 estariam relacionadas a supostos cânceres induzidos por vacinas, atribuindo os números a outros fatores sanitários.
Apesar das críticas, os autores do estudo coreano defendem que seus achados merecem novas investigações, sugerindo acompanhamento de longo prazo para verificar se há de fato algum impacto das vacinas sobre o desenvolvimento de tumores.
Especialistas internacionais alertam que a divulgação de conclusões preliminares sem respaldo biológico sólido pode contribuir para a desinformação e aumentar a desconfiança em relação às vacinas, que foram essenciais para conter os efeitos mais graves da pandemia.
As vacinas de mRNA, como as produzidas pela Pfizer e Moderna, foram fundamentais na redução de hospitalizações e mortes em todo o mundo. Elas seguem sendo consideradas seguras pela Organização Mundial da Saúde e por agências regulatórias de diversos países.
O debate reacende também discussões sobre o papel da comunicação científica. Para parte da comunidade médica, é fundamental que publicações acadêmicas adotem maior cautela ao apresentar hipóteses que podem ser distorcidas fora do contexto acadêmico.
Enquanto isso, a sociedade acompanha a repercussão do estudo, que se soma a outras controvérsias surgidas após a pandemia. Para muitos, a divulgação de informações não consolidadas pode colocar em risco a confiança pública na ciência.
A polêmica sul-coreana, portanto, reforça a necessidade de distinguir correlação de causalidade, especialmente em temas sensíveis que impactam diretamente a saúde pública. Pesquisas adicionais deverão confirmar ou refutar as hipóteses levantadas.
Por ora, o consenso entre especialistas permanece: não há evidências científicas que estabeleçam vínculo direto entre vacinas contra a Covid-19 e aumento de risco de câncer. A recomendação de autoridades de saúde segue sendo a de manter a vacinação em dia.

