O que incomoda mais: o ronco ensurdecedor de uma moto à meia-noite ou o barulho ensurdecedor da ineficácia política?
O deputado Kim Kataguiri apresentou um projeto de lei que prevê prisão e multa para motociclistas que adulterarem o escapamento de suas motos para aumentar o ruído.
À primeira vista, parece uma medida de bom senso, alinhada com o clamor popular contra a poluição sonora.
Mas o detalhe que chama a atenção não é o conteúdo em si, e sim o contexto.
Quando um parlamentar escolhe enfrentar o escapamento barulhento, em vez de temas estruturais de segurança viária ou mobilidade urbana, ele está sinalizando algo sobre prioridades políticas.
A proposta traz consigo um paradoxo: legislar sobre o barulho, mas permanecer em silêncio sobre as causas que levam milhares de jovens a transformar motos em símbolos de status, resistência ou mera transgressão.
O escapamento barulhento, afinal, é apenas a superfície de um problema mais profundo.
O ruído excessivo não é só incômodo; há estudos que o relacionam ao aumento de estresse, distúrbios do sono e até doenças cardiovasculares.
A questão de saúde pública, portanto, é legítima.
O problema é que o texto aposta na repressão direta: multa pesada e prisão.
É a tradução legislativa de um reflexo antigo — o de que problemas sociais podem ser corrigidos com mais punição.
O que se ignora é que a fiscalização de leis desse tipo no Brasil já é precária.
Quantos municípios têm efetivo e estrutura para medir decibéis na rua, aplicar multas e processar reincidentes?
Há também o componente cultural.
Para muitos motociclistas, o barulho é linguagem: uma forma de marcar presença, de se diferenciar.
É uma estética marginal, mas profundamente enraizada.
Assim, a lei corre o risco de se tornar letra morta — ou pior: um instrumento de perseguição seletiva.
Quem será de fato multado ou preso? O jovem da periferia com uma moto usada ou o colecionador de Harley que desfila em finais de semana?
Nesse sentido, o projeto mais expõe a desigualdade do que resolve a questão.
Leis punitivas sem infraestrutura de fiscalização e sem debate cultural acabam reforçando a sensação de arbitrariedade.
Outro ponto raramente discutido é o lobby da indústria automotiva.
Peças de escapamento esportivo movimentam um mercado paralelo robusto, difícil de ser controlado.
Tocar nesse setor significaria enfrentar interesses econômicos que dificilmente se submetem apenas à lei.
A iniciativa de Kataguiri, portanto, precisa ser lida também como gesto político.
Ela comunica ao eleitorado urbano que o deputado está atento a incômodos cotidianos, mas evita enfrentar dilemas de maior complexidade.
O barulho das motos é real, mas pode ser apenas uma metáfora.
Ele simboliza a capacidade da política brasileira de se ocupar com sintomas, enquanto as causas continuam intocadas.
No fim, resta a pergunta que deveria guiar qualquer análise legislativa: a lei proposta vai de fato melhorar a vida das pessoas ou servirá apenas como mais um ruído no já conturbado ambiente político nacional?

