Quantos representantes um país precisa enviar para uma Assembleia da ONU? Para o Brasil de Lula, a resposta parece ser 110. O número, por si só, já provoca espanto. Mas foi o custo que transformou a notícia em debate: R$ 4,31 milhões em apenas três dias, destinados a hospedagem e transporte em Nova York.
O dado circula com força, mas a questão relevante vai além da matemática. O que significa, politicamente, enviar uma tropa de ministros, assessores e auxiliares para um evento que, em teoria, tem como centro um único discurso presidencial?
A ONU é vitrine global, sem dúvida. A presença de Lula no púlpito interessa tanto para a imagem do país quanto para a estratégia diplomática de seu governo. Mas quando a vitrine se transforma em desfile de comitiva, o foco desloca-se do discurso para a logística.
O contraste salta aos olhos. O mesmo governo que prega responsabilidade fiscal, justiça social e austeridade seletiva parece não ter aplicado esses princípios à própria viagem.
Os defensores alegam que encontros paralelos justificam o volume. De fato, a Assembleia não se resume ao discurso. Há negociações de bastidores, reuniões bilaterais, aproximações estratégicas. Ainda assim, a dimensão da comitiva desafia a lógica.
É improvável que 110 pessoas tenham papel decisivo nesses encontros. Muitos foram como acompanhantes de acompanhantes, numa espécie de caravana política travestida de missão diplomática.
O gasto em hotéis de luxo e transporte privado também reforça a imagem de desconexão com a realidade brasileira. Em um país onde milhões enfrentam filas no SUS e cortes em programas sociais, a cifra soa como insulto.
Esse tipo de episódio tem efeito corrosivo na opinião pública. Não se trata apenas de dinheiro — trata-se de percepção. E, em política, percepção pode pesar mais que planilhas.
Ao optar por um tamanho de comitiva que beira a ostentação, Lula e sua equipe oferecem munição aos críticos e alimentam o desgaste junto ao eleitorado mais cético.
Há também o efeito simbólico. Um governo que se coloca como representante das vozes do Sul Global, das desigualdades e da pobreza, não pode se dar ao luxo de reproduzir sinais de abundância elitista em palco internacional.
O curioso é que a crítica não vem apenas da oposição. Até setores simpáticos ao governo reconhecem o exagero, ainda que tentem relativizar o impacto. Isso demonstra que, no mínimo, houve falha de cálculo político.
Se a intenção era mostrar força, a mensagem se perdeu. A narrativa que emergiu foi a de desperdício, de desconexão com a base e de privilégio.
A questão central não é se o Brasil deve estar presente em Nova York. Claro que deve. Mas a forma como se dá essa presença define o peso simbólico que ela carrega.
No fundo, o episódio escancara uma contradição que acompanha o lulismo desde sempre: a retórica da austeridade para uns e a prática da abundância para outros.
É nesse espaço de contradições que se alimenta o ceticismo popular. Cada viagem, cada gasto, cada gesto fora de sintonia com a realidade interna amplia o fosso entre discurso e prática.
Mais do que discutir cifras, é preciso observar o sinal político. Se Lula queria projetar liderança mundial, acabou projetando um governo que ainda não aprendeu a gerir símbolos com parcimônia.
O Brasil não é o único país a gastar cifras altas em assembleias internacionais. Mas a comparação não basta para justificar. Cada nação traz consigo sua própria crise interna, e a nossa é marcada pela desigualdade.
Ao fim, a viagem de Lula a Nova York será lembrada menos pelo que ele disse na ONU e mais pela conta deixada nos cofres públicos. Uma inversão de prioridades que mina o próprio objetivo da comitiva.
A pergunta que fica é simples, mas incômoda: o governo aprendeu algo com esse episódio ou repetirá o erro nas próximas vitrines internacionais?
Talvez a resposta determine não só o destino de futuras viagens, mas também a credibilidade de um discurso que insiste em pregar sobriedade enquanto pratica excessos.

