Maduro oferece ajuda a Trump para capturar líderes de gangues venezuelanas, diz agência

O que leva um líder autoritário, isolado no cenário internacional, a oferecer cooperação justamente ao país que mais o pressiona?

A notícia de que Nicolás Maduro teria oferecido ajuda a Donald Trump para capturar líderes de gangues venezuelanas instalados nos EUA soa, à primeira vista, como uma contradição.

De um lado, a retórica antiamericana sempre foi um dos pilares do chavismo. De outro, a criminalidade transnacional ligada à diáspora venezuelana tornou-se um problema real para Washington.

Maduro enxerga nesse paradoxo uma oportunidade: transformar um inimigo histórico em interlocutor estratégico.

A lógica é simples — ou pelo menos pragmática. Ao oferecer colaboração, o presidente venezuelano tenta reposicionar seu regime não como ameaça, mas como parceiro indispensável em uma questão que preocupa o eleitorado americano.

Para Trump, que constrói sua narrativa em torno de segurança e controle migratório, a proposta pode soar tentadora. Afinal, não se trata de ideologia, mas de resultados concretos contra gangues violentas.

No entanto, aceitar ajuda de Maduro significaria, para qualquer líder americano, dar legitimidade a um governo acusado de violações de direitos humanos e manipulação eleitoral.

Esse é o dilema: a política externa, quando confrontada com a segurança doméstica, tende a relativizar princípios.

A jogada de Maduro também tem destinatário interno. Ao aparecer na cena internacional como ator proativo, ele tenta reforçar a imagem de estadista capaz de negociar até mesmo com o arqui-inimigo.

Essa estratégia é um clássico da sobrevivência política: quando acuado, transformar vulnerabilidade em moeda de troca.

A presença de facções criminosas venezuelanas em território americano é uma realidade documentada. Não é apenas narrativa — é problema concreto de polícia e fronteira.

Mas transformar cooperação antissubversiva em ponte diplomática envolve riscos. Pode normalizar relações sem que haja contrapartida em democracia ou direitos humanos.

A pergunta central não é se Maduro ajudaria Trump, mas a que preço.

O preço pode ser um alívio em sanções, maior reconhecimento internacional ou, ao menos, a quebra do isolamento diplomático que asfixia Caracas.

Para Washington, aceitar ou recusar é mais do que cálculo de segurança: é definir até onde vai sua tolerância em nome da realpolitik.

Para a Venezuela, a mensagem é clara: mesmo regimes deslegitimados encontram maneiras de se tornar úteis.

Esse episódio expõe uma verdade incômoda: no xadrez global, valores são peças frágeis quando comparadas ao peso dos interesses imediatos.

E talvez essa seja a reflexão mais perturbadora — o crime organizado, longe de ser apenas problema de segurança, pode se tornar instrumento de diplomacia entre adversários irreconciliáveis.

Resta saber se esse gesto será lembrado como mais um teatro de conveniências ou como o início de uma negociação improvável, em que o pragmatismo fala mais alto que a coerência política.

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