Quem faz uma barbaridade dessa com uma criança é capaz de fazer qualquer coisa ruim nessa vida

Por que uma criança de apenas três anos se torna alvo de brutalidade dentro do próprio lar, justamente no espaço que deveria protegê-la?

O caso recente em que um padrasto agrediu violentamente uma menina porque ela chorava é mais do que um crime isolado. Ele expõe fissuras profundas em nossa cultura e em nossas instituições.

Um choro infantil, biologicamente inevitável, foi interpretado como provocação. Isso revela não apenas a crueldade do agressor, mas a incapacidade de reconhecer a vulnerabilidade como parte da infância.

Não se trata apenas de violência doméstica. Trata-se de um sintoma social: a dificuldade de lidar com a fragilidade sem transformá-la em motivo de punição.

O padrasto, ao reagir com socos, não apenas agrediu a menina. Ele rompeu simbolicamente o pacto básico de cuidado que sustenta a vida em comunidade.

Mas esse episódio não nasce do nada. Há um caldo cultural de permissividade, em que a violência contra crianças ainda é minimizada como “educação rígida” ou “perda momentânea de controle”.

Os números corroboram: milhares de denúncias de maus-tratos chegam anualmente ao Conselho Tutelar e à Polícia. E muitos casos sequer são registrados.

A casa, que deveria ser o refúgio, frequentemente se transforma no espaço mais perigoso para os pequenos. Um paradoxo brutal que raramente recebe a devida atenção.

É preciso perguntar: onde estavam os filtros sociais capazes de proteger essa criança antes da agressão? Família ampliada, vizinhos, órgãos de proteção — todos falharam de alguma forma.

A violência contra menores não é apenas um crime contra a vítima. É um crime contra o futuro, contra a possibilidade de que aquela criança cresça sem cicatrizes físicas e emocionais.

Especialistas em psicologia infantil são categóricos: os impactos de episódios assim podem acompanhar a vida inteira, moldando comportamentos, medos e relações de confiança.

Há também uma questão estrutural. Por que indivíduos violentos conseguem exercer autoridade dentro de lares sem que haja monitoramento ou suporte às mães e crianças em risco?

A resposta está na ausência de políticas públicas eficazes e na dificuldade de romper o ciclo da violência doméstica, que muitas vezes se repete de geração em geração.

É ingênuo acreditar que endurecer penas isoladamente resolverá o problema. A raiz é mais profunda, ligada à educação emocional, ao apoio social e à responsabilização precoce de agressores.

O caso do padrasto deveria nos obrigar a encarar a pergunta incômoda: quantas outras crianças choram agora atrás de portas fechadas, sem testemunhas?

A indignação pública, embora necessária, é sempre passageira. O desafio é transformar esse choque momentâneo em políticas consistentes de prevenção e acolhimento.

Não há sociedade saudável que normalize a violência contra seus membros mais indefesos. Quando isso ocorre, não é apenas a infância que está em risco, mas o tecido moral coletivo.

O choro de uma criança não é provocação. É pedido de atenção, alimento, conforto. Ignorar isso é recusar a própria humanidade.

Talvez o ponto central seja este: proteger crianças não é um ato de caridade, mas de sobrevivência coletiva. Se falhamos com elas, falhamos conosco mesmos.

E diante desse caso, a pergunta que deveria ecoar é simples, mas devastadora: até quando aceitaremos que a infância continue sendo silenciada a golpes?

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