Pode o Brasil do século XXI revisitar uma decisão tomada em 1889? A proposta de um plebiscito pelo retorno da monarquia nas eleições de 2026 recoloca uma questão aparentemente enterrada pela História.
Trata-se de uma sugestão legislativa em análise na Comissão de Direitos Humanos do Senado. A ideia é simples na forma, mas complexa em suas implicações: consultar os brasileiros sobre a restauração de uma monarquia parlamentarista.
Se aprovado, o plebiscito traria ao eleitorado a possibilidade de escolher entre manter a república presidencialista ou experimentar um modelo que remete ao Império.
Nesse cenário hipotético, o herdeiro natural ao trono seria Dom Bertrand de Orléans e Bragança, bisneto da princesa Isabel.
O simbolismo é evidente: um salto de mais de 130 anos, da proclamação da República em 1889 para um país que ainda busca estabilidade institucional em 2026.
O autor da proposta justifica sua iniciativa afirmando que o presidencialismo “não se mostrou efetivo”. O argumento central é o custo político da governabilidade: orçamentos usados como moeda de troca para apoio no Congresso.
Mas seria a monarquia a solução para esse dilema?
Defensores do modelo parlamentarista monárquico argumentam que o rei, como figura simbólica, garante estabilidade, enquanto o governo é conduzido por um primeiro-ministro eleito.
Na prática, apontam para exemplos europeus — Reino Unido, Espanha, Suécia — onde a monarquia convive com democracias consolidadas.
Os críticos, porém, enxergam a proposta como anacrônica. Para eles, o problema brasileiro não está na forma de governo, mas na fragilidade das instituições e na captura do Estado por interesses privados.
Reinstaurar um rei não eliminaria o fisiologismo do Congresso, nem as distorções do sistema partidário.
Além disso, a ideia desperta questões jurídicas e práticas. Como seria a transição? Qual seria o papel do monarca em um país com dimensões continentais e desigualdades profundas?
Outro ponto é simbólico: a memória histórica. A monarquia brasileira, apesar de legada por figuras como Dom Pedro II, também foi marcada por exclusões, como a manutenção da escravidão até 1888.
Resgatar o modelo sem encarar esses aspectos seria, no mínimo, seletivo.
O plebiscito, se aprovado, terá um valor além do resultado. Ele refletirá o grau de confiança — ou desconfiança — do brasileiro em relação à república.
Mais que escolher entre rei ou presidente, a sociedade será convidada a avaliar a si mesma: suas expectativas de governança, sua tolerância à instabilidade, sua relação com o passado.
Talvez a pergunta central não seja se o Brasil deve ter um rei, mas se já aprendeu a ser uma república.
O plebiscito, nesse sentido, pode se tornar menos uma votação sobre monarquia e mais um espelho sobre a democracia brasileira.
E o que ele revelará, em 2026, poderá ser mais incômodo do que qualquer coroa.

