Evaristo Costa revela constrangimento em avião por conta de sua doença de Crohn

Quem nunca se perguntou como seria viver com uma condição que não se vê, mas que molda cada gesto, cada deslocamento, cada silêncio?

 

O episódio relatado pelo jornalista Evaristo Costa em um voo recente é um desses lembretes incômodos de que a fragilidade humana não se acomoda às convenções sociais.

 

Diagnosticado com síndrome de dumping após uma cirurgia bariátrica, Costa convive com efeitos colaterais súbitos e, muitas vezes, humilhantes. Não são marcas visíveis, mas manifestações fisiológicas que podem transformar uma simples viagem em um campo de constrangimento público.

 

A cena descrita por ele — o corpo reagindo sem aviso, a vergonha diante dos passageiros — escancara uma dimensão pouco discutida: a crueldade silenciosa da doença invisível.

 

Vivemos em sociedades que romantizam a superação, mas raramente reconhecem o peso das limitações diárias. O sofrimento que não aparece em exames de imagem ou não exige cadeiras de rodas costuma ser minimizado, como se não fosse real.

 

No entanto, as doenças invisíveis desafiam nossa noção de normalidade. Elas desmontam o mito da autonomia plena e nos forçam a confrontar o desconforto de ver que todos somos, em graus diferentes, vulneráveis.

 

O constrangimento de Evaristo também é social, não apenas físico. O olhar alheio transforma sintomas em espetáculo, e o medo do julgamento amplia o impacto da condição.

 

Não se trata apenas de empatia individual, mas de uma cultura que ainda precisa aprender a lidar com corpos que fogem da cartilha do “normal”.

 

Quando celebridades como ele expõem suas fragilidades, revelam um território pouco iluminado: o da saúde como experiência subjetiva, que não se resume a diagnósticos ou estatísticas.

 

Há algo de profundamente político nisso. Falar sobre uma síndrome que pode atingir milhares é, em si, um ato de resistência contra o silenciamento que recai sobre tantas outras condições crônicas.

 

Ao narrar sua experiência, Costa rompe a lógica da vergonha. Ele transforma um episódio íntimo em pauta coletiva, obrigando-nos a repensar o espaço que damos às dores não reconhecidas.

 

Talvez o ponto mais perturbador seja a constatação de que o desconforto maior não está no sintoma em si, mas na reação dos outros. O corpo fala, mas é a sociedade que transforma esse discurso em estigma.

 

Se a doença invisível existe, a indiferença coletiva a torna ainda mais opressora.

 

A pergunta que fica é: até que ponto estamos preparados para conviver com o imponderável que habita os corpos ao nosso lado?

 

Num mundo obcecado pela performance, admitir vulnerabilidade continua sendo um gesto radical.

 

Evaristo Costa, ao compartilhar seu constrangimento, fez mais do que um desabafo: apontou para a urgência de um debate sobre saúde, dignidade e acolhimento em espaços públicos.

 

Em última instância, o voo turbulento de um jornalista nos recorda que a verdadeira turbulência não vem das nuvens, mas das expectativas cruéis que projetamos uns sobre os outros.

 

Afinal, se até as doenças visíveis já sofrem preconceito, o que dizer das que só existem na carne de quem as sente?

 

Talvez a maior lição desse episódio seja simples, mas nada óbvia: olhar o outro não como espetáculo, mas como espelho de nossas próprias fragilidades.

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