Pode uma eleição ser decidida não por quem governa, mas por quem simboliza? Essa é a provocação que emerge diante da movimentação de Jair Bolsonaro em direção ao nome de Michelle Bolsonaro como potencial candidata presidencial.
A cena, à primeira vista, parece improvável: um ex-presidente, conhecido por centralizar decisões, ceder espaço à própria esposa como figura central do projeto político. Mas essa leitura literal ignora o subtexto mais profundo.
Bolsonaro não está apenas lançando Michelle. Ele está criando um escudo, um veículo e, sobretudo, uma narrativa.
Michelle reúne atributos que Bolsonaro perdeu. Sua imagem pública é menos desgastada, menos associada a polêmicas, mais próxima de discursos de fé e família — pilares que ainda mobilizam um eleitorado fiel.
Ao apoiá-la, Bolsonaro desloca o foco: em vez de revisitar sua própria rejeição, ele oferece ao eleitorado uma “nova embalagem” para a mesma agenda ideológica.
Esse gesto também é um teste de limites. Até onde o bolsonarismo é dependente da figura do ex-presidente e até onde é um movimento social que pode sobreviver sem ele no centro do palco?
Michelle se encaixa como um elo simbólico: preserva a ligação com Bolsonaro, mas projeta frescor. Para uma base que teme a “descontinuidade”, ela oferece continuidade revestida de novidade.
Há ainda o cálculo jurídico. Fora do cargo e alvo de investigações, Bolsonaro corre riscos crescentes. Ao transferir capital político para Michelle, ele garante um tipo de seguro de relevância, mesmo que fique impossibilitado de concorrer.
O que parece uma renúncia, portanto, é também uma estratégia de sobrevivência. Michelle candidata não é a negação de Bolsonaro; é a extensão do seu projeto por outras vias.
A oposição, no entanto, tende a ler esse movimento de forma simplista, como sinal de fraqueza. Ignora que, em tempos de saturação política, o eleitorado pode se mostrar mais receptivo a rostos femininos ligados à pauta conservadora.
O bolsonarismo aposta no contraste. Enquanto outros partidos discutem candidaturas tradicionais, a entrada de Michelle embaralha o tabuleiro, trazendo o elemento surpresa.
Há quem veja risco em transformar a política em dinastia familiar. Mas dinastias não são novidade no Brasil — basta lembrar de Sarneys, Magalhães e Neves. O que muda é o contexto de redes sociais, onde símbolos circulam mais rápido que programas.
Nesse sentido, Michelle não precisa dominar debates econômicos ou geopolíticos de imediato. Sua função inicial é encarnar valores. A política contemporânea, muitas vezes, se move mais por identidades do que por planos detalhados.
Isso não significa, contudo, que o caminho esteja livre. Michelle terá de enfrentar a difícil transição de “primeira-dama carismática” para “liderança política autônoma”. A distância entre uma função simbólica e a cadeira do Planalto é abissal.
Também não está claro se sua popularidade se sustenta fora da bolha bolsonarista. O carisma religioso que atrai evangélicos pode, ao mesmo tempo, afastar setores mais seculares do eleitorado.
O fato é que a escolha de Bolsonaro embaralha previsões e desafia análises convencionais. Não se trata apenas de sucessão familiar, mas de um experimento político: transformar capital afetivo em viabilidade eleitoral.
Se dará certo ou não, é cedo para afirmar. Mas a simples possibilidade já força todos os atores políticos a recalcular suas estratégias.
Michelle não é apenas “a esposa de Bolsonaro”. No xadrez político atual, ela pode se revelar a peça que redefine as jogadas.
A pergunta que resta é: o eleitor brasileiro está disposto a apostar em um rosto novo que carrega, ainda assim, todas as marcas de um projeto antigo?

