A imagem de um ex-BBB atrás do volante de um carro de aplicativo parece, para muitos, um sinal inequívoco de fracasso. Mas será que essa interpretação não revela mais sobre quem julga do que sobre quem é julgado?
Ayrton, ex-participante do Big Brother Brasil e pai da apresentadora Ana Clara, decidiu trabalhar como motorista de aplicativo no Rio de Janeiro. A notícia repercutiu rapidamente, gerando especulações sobre dificuldades financeiras.
O detalhe incômodo para o público não foi o trabalho em si, mas a quebra da expectativa. Para muitos, quem passou pela vitrine de um reality deveria se manter em um pedestal, distante das ocupações “comuns”.
Ana Clara, sua filha, tratou logo de desarmar os rumores. Em entrevista, deixou claro que não se trata de crise, mas de escolha. “Meu pai sempre foi muito ativo. Ele gosta de dirigir, de conversar com as pessoas. É algo que faz bem para ele.”
Essa defesa traz à tona uma pergunta incômoda: por que ainda associamos certos trabalhos à ideia de fracasso? A condução de um carro de aplicativo é menos digna que a apresentação de um programa de TV?
O caso evidencia um preconceito velado em torno do trabalho manual ou de serviços diretos. A sociedade que celebra o empreendedorismo continua, paradoxalmente, desprezando ocupações que sustentam seu cotidiano.
No caso de Ayrton, há também um contraste interessante entre visibilidade midiática e anonimato urbano. No estúdio, era o centro das câmeras. No carro, é mais um motorista entre milhares. Essa transição desafia o imaginário coletivo sobre fama.
Trabalhar “por gosto” ainda é um luxo reservado a poucos. Quando alguém o faz em áreas vistas como menos prestigiadas, a surpresa é imediata. É como se houvesse uma hierarquia tácita entre profissões, e dirigir não estivesse no topo.
Mas talvez resida aí a força da escolha de Ayrton. Em vez de sustentar uma imagem artificial, optou por algo que lhe traz satisfação e rotina.
A reação do público, no entanto, mostra como continuamos reféns de uma lógica que confunde visibilidade com sucesso. Esquecemos que a vida não se mede em seguidores ou holofotes, mas em bem-estar e propósito.
O episódio também expõe a pressão que familiares de figuras públicas sofrem. Ana Clara precisou se pronunciar, não por causa de uma decisão errada do pai, mas pela leitura enviesada que outros fizeram dela.
Há, ainda, um componente geracional. Em uma época em que o trabalho é visto ora como identidade, ora como fardo, Ayrton parece reivindicar algo mais simples: o prazer em ocupar seu tempo de forma útil.
Ser motorista de aplicativo, nesse contexto, deixa de ser apenas um meio de renda. Torna-se um espaço de sociabilidade, de contato humano, de movimento constante — elementos que ajudam a manter a mente ativa.
Curiosamente, essa escolha humaniza uma figura que o reality transformou em personagem. Ayrton, longe das câmeras, mostra que a vida real é feita de decisões práticas, nem sempre compatíveis com o imaginário coletivo.
E talvez o incômodo do público revele menos sobre Ayrton e mais sobre nós: nossa obsessão com status, nossa dificuldade em aceitar a dignidade de todo trabalho, nossa tendência a confundir fama com destino.
Ao final, a lição que emerge não é sobre decadência, mas sobre liberdade. A liberdade de escolher um caminho sem se submeter ao olhar julgador dos outros.
Se a sociedade ainda hesita em enxergar isso, o volante de Ayrton talvez esteja apontando para uma direção mais saudável: a de valorizar menos os rótulos e mais as escolhas pessoais.
A questão que fica é simples: estamos preparados para aceitar que sucesso não tem uma forma única? Ou continuaremos medindo vidas com a régua estreita da aparência?

