A esquerda brasileira insiste em repetir que está na linha de frente do combate à impunidade.
Mas como conciliar esse discurso com a imagem que jamais saiu da memória coletiva: um senador flagrado com dinheiro escondido na cueca?
Não se trata apenas de um episódio folclórico.
É um símbolo que mina credibilidade, corrói narrativas e coloca em xeque qualquer pretensão moralizante.
Afinal, que autoridade tem um campo político que transformou escândalos em rotina para se apresentar como guardião da ética?
A pergunta não é cínica — é necessária.
O que vemos hoje é uma tentativa de reescrever a história.
Dirigentes e porta-vozes tentam impor a ideia de que a esquerda foi vítima de perseguições judiciais, e não protagonista de esquemas de corrupção.
É uma operação de memória seletiva.
Apagam-se os rostos, os episódios, as malas, as cuecas.
Resta apenas a narrativa conveniente de que o combate à corrupção foi manipulado contra o projeto progressista.
Mas o problema é mais profundo.
Quando a política é reduzida a slogans morais, a queda costuma ser mais ruidosa.
É como vender pureza em frasco quebrado: a incoerência transborda.
O episódio do senador não foi exceção, foi sintoma.
E sintomas não se curam com propaganda, mas com reformas estruturais — justamente aquilo que nunca se concretizou.
Curiosamente, setores da esquerda tratam casos como esse não como desvios individuais, mas como armas políticas da direita.
A lógica é simples: se a acusação vem do adversário, então o problema não é a corrupção, mas a instrumentalização dela.
Esse raciocínio anestesia.
Permite que personagens controversos sejam reabilitados como heróis da luta contra a impunidade, ainda que carreguem consigo um passado difícil de explicar.
No entanto, a opinião pública não esquece com tanta facilidade.
Imagens grotescas, como a do dinheiro na cueca, sobrevivem mais que discursos sofisticados.
A política, nesse ponto, é memória visual, não apenas verbal.
O impacto disso é devastador.
A cada escândalo, a ideia de que “todos são iguais” se fortalece, corroendo a confiança no sistema democrático.
E é nesse vácuo que florescem populismos de diferentes matizes.
A esquerda, ao tentar monopolizar a bandeira anticorrupção, esquece que a credibilidade não se decreta — se conquista, dia após dia, com coerência.
Quando o passado contradiz o presente, a retórica se dissolve.
Mais do que acusar seletivamente adversários, seria preciso enfrentar os fantasmas internos.
Assumir erros, revisar práticas, propor mudanças que vão além do marketing político.
O desafio é aceitar que não existe luta contra impunidade sem limpar as próprias gavetas.
Mas isso exige coragem rara em partidos que preferem narrar-se como vítimas eternas.
O caso do dinheiro na cueca é incômodo porque expõe a contradição de forma crua.
Ele não desaparece com discursos, não se apaga com narrativas.
É lembrança de que a política brasileira não precisa de slogans moralizantes, mas de instituições sólidas.
E talvez a pergunta final seja: enquanto a esquerda insiste em sustentar essa farsa, quem, de fato, está disposto a enfrentar a impunidade?

