O que significa quando Donald Trump, em plena ONU, elogia Lula e o chama de “um homem muito agradável”?
À primeira vista, parece apenas cortesia diplomática. Dois líderes, em contextos distintos, trocando elogios protocolares.
Mas, com Trump, nada é tão simples. Sua retórica é sempre estratégica, ainda que disfarçada de espontaneidade.
Ao citar Lula, Trump não apenas reconhece o presidente brasileiro. Ele o insere em seu próprio tabuleiro político.
Nos Estados Unidos, Trump vive em campanha permanente. Sua presença na ONU é tanto um ato internacional quanto uma performance voltada ao público doméstico.
Para seus apoiadores, Trump se apresenta como o líder capaz de dialogar até com figuras associadas à esquerda global.
Curiosamente, Lula ocupa uma posição ambígua nesse jogo. Para a direita americana, é símbolo de políticas progressistas. Para a esquerda internacional, representa a tentativa de um capitalismo “mais humano”.
Ao chamá-lo de agradável, Trump suaviza um personagem que, em teoria, poderia ser tratado como adversário ideológico.
Esse gesto, entretanto, pode ser lido como cálculo: reduzir antagonismos e, ao mesmo tempo, projetar-se como estadista flexível.
Para Lula, o elogio também tem peso. Ele ganha, de forma indireta, uma chancela de um dos nomes mais polarizadores do planeta.
Não é pouca coisa. Em política internacional, mesmo uma frase pode redefinir percepções.
Ainda assim, cabe a pergunta: Trump realmente vê Lula como parceiro, ou apenas o utiliza como peça de discurso?
Na diplomacia, palavras são armas sutis. O que se elogia hoje pode ser descartado amanhã, conforme a conveniência eleitoral.
É importante lembrar que Trump já alternou entre ataques e afagos a líderes de todo o mundo. Da Coreia do Norte à Rússia, sua lógica é a do espetáculo.
Nesse contexto, Lula funciona como mais um personagem capaz de compor uma narrativa maior: a de que Trump sabe dialogar com qualquer um.
O elogio, portanto, diz menos sobre Lula e mais sobre o próprio Trump.
Resta ao Brasil decidir se aceita esse gesto como oportunidade de aproximação ou como parte de um teatro maior.
No fundo, a pergunta que fica é simples: estamos diante de diplomacia genuína ou apenas mais um capítulo da política-espetáculo?
Talvez a resposta não esteja no que foi dito, mas no que será feito quando — e se — esse encontro realmente acontecer.

