Carol Castro critica a escolha de Virgínia como rainha de bateria: “ela ser anunciada em um samba-enredo sobre desigualdade é uma hipocrisia

Pode uma escola de samba que canta a desigualdade coroar como rainha de bateria alguém distante da comunidade que a sustenta?

 

Essa pergunta emergiu após Carol Castro criticar publicamente a escolha de Virginia para o posto máximo da Grande Rio. A atriz classificou a decisão como “hipocrisia” diante do enredo que aborda desigualdade.

 

No Brasil, o carnaval nunca foi apenas festa. Ele é palco político, vitrine cultural e território de disputas simbólicas.

 

As rainhas de bateria, longe de serem apenas musas, carregam o peso de representar a escola e, por extensão, a comunidade que a ergue.

 

Historicamente, esse posto oscilou entre duas forças: a autenticidade do pertencimento e o apelo midiático do patrocínio.

 

De um lado, rainhas nascidas no berço das comunidades do samba, símbolo de resistência e tradição.

 

De outro, celebridades que aportam visibilidade, recursos e publicidade, mas cuja ligação com a escola é frequentemente efêmera.

 

O caso de Virginia escancara essa tensão. Ela é uma das maiores influenciadoras do país, com um alcance digital que pode catapultar a Grande Rio para holofotes globais.

 

Mas qual o preço de trocar pertencimento por visibilidade?

 

A crítica de Carol Castro não é isolada: ela ecoa uma inquietação antiga sobre o espaço da comunidade frente ao espetáculo do mercado.

 

Não se trata de rejeitar Virginia como indivíduo. Trata-se de questionar a lógica que prioriza o capital simbólico da fama sobre a representatividade coletiva.

 

O samba-enredo, ao falar de desigualdade, aumenta o contraste: como conciliar discurso e prática quando o posto mais cobiçado vai para alguém de fora?

 

Alguns dirão que é apenas carnaval, que não vale tanta análise. Mas é justamente nesse “apenas” que se esconde a contradição.

 

O carnaval movimenta milhões, molda narrativas culturais e reafirma identidades. É impossível tratá-lo como irrelevante.

 

Permitir que os espaços de prestígio sejam ocupados por outsiders enquanto a comunidade permanece na arquibancada reforça a mesma desigualdade que o enredo critica.

 

Ao mesmo tempo, recusar a influência de figuras midiáticas pode significar abrir mão de recursos que mantêm as escolas vivas em tempos de patrocínio escasso.

 

O dilema é real: preservar a alma ou garantir a sobrevivência?

 

No fim, a polêmica sobre Virginia não é apenas sobre uma rainha de bateria. É sobre o futuro do carnaval como patrimônio vivo e não apenas como vitrine de mercado.

 

E talvez a pergunta que reste não seja “quem pode ser rainha?”, mas “a quem o carnaval pertence?”.

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