O que significa quando uma disputa doméstica atravessa fronteiras e se manifesta em outro país? Foi exatamente o que ocorreu em Nova York, onde um grupo de brasileiros se reuniu diante do hotel em que Luiz Inácio Lula da Silva estava hospedado e, em coro, entoou: “Lula ladrão, seu lugar é na prisão”.
O episódio, aparentemente menor, revela muito mais do que um protesto isolado. Ele é o retrato de como a política brasileira transbordou suas fronteiras e passou a habitar também os espaços da diáspora.
Nova York, com sua concentração de imigrantes e sua visibilidade global, tornou-se palco de um embate que, originalmente, pertence ao território brasileiro. Mas será mesmo que ele ainda pertence apenas ao Brasil?
A cena de manifestantes diante do hotel não pode ser lida apenas como hostilidade contra um presidente em viagem. É também a expressão de um Brasil que insiste em carregar suas feridas abertas para onde quer que vá.
O slogan usado, “Lula ladrão”, não é novo. É herança de uma narrativa que se cristalizou durante a Operação Lava Jato e que sobreviveu às mudanças jurídicas, às reviravoltas processuais e até à anulação de sentenças.
Quando esses gritos ecoam em outro país, eles não são apenas protesto. Tornam-se performance, um modo de projetar a disputa política brasileira em escala internacional, diante de um público que talvez nem entenda o contexto.
O alvo, nesse caso, não é apenas Lula. É a imagem do Brasil que se quer construir perante o mundo. Uma imagem fragmentada, conflituosa e incapaz de produzir consenso interno.
Vale notar que Lula estava em Nova York para compromissos oficiais, tentando reafirmar sua posição no cenário global. O contraste entre o discurso diplomático e os protestos populares é, no mínimo, simbólico.
É como se duas narrativas paralelas disputassem espaço: de um lado, o Brasil institucional, que busca protagonismo nas discussões internacionais; de outro, o Brasil da rua, que insiste em lembrar das feridas políticas não cicatrizadas.
O fenômeno não é exclusivo do Brasil. Outras diásporas carregam suas batalhas políticas para o exterior. Mas, no caso brasileiro, a polarização ganhou contornos tão intensos que qualquer espaço se torna palco.
Há também um elemento de identidade. Para muitos desses manifestantes, protestar contra Lula em Nova York não é apenas um ato político, mas uma reafirmação de pertencimento a um grupo ideológico específico.
E isso levanta outra questão: até que ponto a política nacional se tornou parte da própria identidade pessoal? Quando gritar contra um presidente no exterior deixa de ser sobre ele e passa a ser sobre quem grita?
É inegável que episódios como esse minam a tentativa de Lula de reconstruir sua imagem no exterior. O protesto, ainda que pequeno, gera imagens que circulam nas redes e contaminam o discurso oficial.
Por outro lado, também é verdade que tais manifestações reforçam a ideia de democracia. Mesmo em solo estrangeiro, cidadãos exercem sua liberdade de expressão, ainda que em oposição ao chefe de Estado.
O problema está na repetição incessante dessa narrativa única, que ignora nuances e reduz a complexidade política a um bordão. Bordão que, apesar de antigo, continua a ecoar com força.
O episódio em Nova York funciona como um lembrete de que o Brasil ainda não superou seu trauma político. Nem mesmo oceanos são capazes de apagar a cicatriz.
Se a política é, em essência, a arte de construir consensos, o que esses protestos mostram é a incapacidade crônica do país em dialogar com suas próprias contradições.
No fim das contas, talvez o episódio diga menos sobre Lula e mais sobre nós. Sobre a nossa dificuldade de elaborar o passado e de encontrar uma narrativa compartilhada para o futuro.
A pergunta que fica é: até quando o Brasil continuará a exportar não sua cultura, sua inovação ou sua diversidade, mas suas divisões internas?
E, sobretudo, o que significa para um país quando sua diáspora escolhe carregar bandeiras de conflito em vez de pontes de entendimento? Essa talvez seja a questão mais incômoda deixada pelos gritos em Nova York.

