O que significa um país não conseguir ensinar suas crianças a ler e escrever na idade certa? Mais que um número abaixo da meta, é um espelho doloroso da distância entre promessas políticas e a realidade das salas de aula.
Segundo os dados do Saeb, apenas 59,2% dos alunos que concluíram o 2º ano do ensino fundamental na rede pública em 2024 foram considerados alfabetizados. O Ministério da Educação havia estipulado o objetivo mínimo de 60%.
À primeira vista, a diferença de 0,8 ponto percentual parece irrelevante, quase estatística. Mas esse “quase” representa centenas de milhares de crianças que avançaram na escola sem a chave elementar do conhecimento.
Há, sim, um progresso em relação a 2023, quando o índice foi de 57,1%. A curva é ascendente, mas a velocidade é insuficiente diante do tamanho do atraso.
O Brasil ainda colhe os efeitos da pandemia, que interrompeu o vínculo diário entre professores e alunos em seus primeiros anos escolares. Período crucial, em que cada mês perdido se traduz em lacunas que dificilmente se fecham depois.
Entretanto, culpar apenas a Covid-19 seria conveniente demais. A crise da alfabetização no Brasil antecede a pandemia, e sua raiz está em escolhas estruturais negligenciadas há décadas.
A meta não alcançada revela não apenas falhas no ensino, mas uma política educacional que se move mais por calendário político do que por planejamento de longo prazo.
Um dado desconfortável: mesmo entre os alfabetizados, muitos atingem apenas níveis básicos, capazes de decifrar palavras, mas não de compreender plenamente um texto. Ler mecanicamente não é o mesmo que ler criticamente.
Isso ajuda a explicar por que, anos depois, vemos adolescentes que chegam ao ensino médio ainda presos a dificuldades de interpretação. O fracasso é acumulativo.
A alfabetização deveria ser tratada como uma prioridade nacional comparável à saúde pública ou à segurança. Afinal, de que adianta formar médicos, engenheiros ou juízes se o país não garante o primeiro degrau do aprendizado?
O contraste com países que já universalizaram a alfabetização é gritante. Não se trata apenas de mais investimentos, mas de consistência pedagógica, continuidade de políticas e valorização real do professor.
Professores brasileiros trabalham com múltiplas turmas, baixa remuneração e pouca formação continuada. Espera-se que sejam heróis, mas recebem condições de soldados sem munição.
Ao mesmo tempo, famílias também carregam responsabilidade. Sem estímulo em casa — leitura compartilhada, acesso a livros, conversas — a escola enfrenta um desafio quase solitário.
O termo “geração perdida” costuma aparecer em momentos como este. Mas talvez o verdadeiro risco seja o de uma sociedade acomodada, que naturaliza a exclusão pela leitura.
Um país em que metade das crianças não lê na idade certa é um país que limita sua própria democracia. Afinal, como exigir participação crítica de cidadãos que não dominam o próprio idioma?
O Saeb expôs uma ferida antiga, apenas coberta por curativos retóricos. Não se trata de uma derrota pontual, mas de um sintoma persistente.
E a pergunta que permanece não é se alcançaremos 60% no próximo ciclo, mas se estamos dispostos a repensar de fato o modelo que insiste em fracassar.
Porque alfabetizar não é apenas ensinar letras: é permitir que cada criança entre no mundo das ideias. E cada meta perdida representa portas que permanecerão fechadas.