O que significa ser adolescente? A resposta parece óbvia, mas talvez não seja mais.
Pesquisadores australianos defendem que a adolescência não termina aos 19 anos, como tradicionalmente se acreditava, mas se estende até os 24.
A justificativa combina biologia e sociedade: o cérebro humano continua em maturação até meados dos 20, enquanto mudanças culturais empurram para frente casamento, filhos e independência financeira.
Não se trata apenas de estatística. A puberdade hoje chega mais cedo, e dentes do siso — um marcador físico tardio — ainda surgem nesse período estendido.
Ao mesmo tempo, jovens permanecem por mais tempo estudando, dependentes da família, sem pressa de assumir papéis adultos. O fenômeno tem até apelido no Brasil: “geração canguru”.
Mas será que ampliar a adolescência resolve um dilema real ou cria um novo?
De um lado, a ciência traz evidências consistentes: a neurociência mostra que o córtex pré-frontal — responsável por decisões e autocontrole — só se consolida por volta dos 25 anos.
Isso ajuda a entender comportamentos de risco comuns nessa faixa etária, como dirigir alcoolizado ou subestimar perigos financeiros.
Reconhecer essa imaturidade prolongada poderia levar a políticas públicas mais realistas, desde a saúde até o direito penal.
Por outro lado, há quem veja na proposta um risco de infantilizar uma geração já acusada de fragilidade.
Se prolongarmos a adolescência até os 24, estaremos legitimando a demora em assumir responsabilidades ou apenas nomeando um fenômeno que já existe?
A linha é tênue. O mesmo conceito que protege pode também limitar.
Um jovem de 23 anos que busca emprego pode ser visto como “ainda adolescente” — e, portanto, menos confiável para o mercado.
Do ponto de vista legal, a mudança teria implicações vastas. Leis trabalhistas, benefícios sociais e até a maioridade penal poderiam ser questionados.
Seria justo manter alguém de 23 anos sob as mesmas condições legais de um de 16?
Ao mesmo tempo, reconhecer a adolescência prolongada pode significar oferecer suporte a jovens em transição, evitando que caiam em zonas de vulnerabilidade.
Há uma contradição central: nunca tivemos tanta informação, recursos e tecnologia disponíveis para a juventude — e, paradoxalmente, nunca demoramos tanto para “crescer”.
Talvez o problema não esteja apenas na biologia ou na cultura, mas no choque entre expectativas herdadas e realidades contemporâneas.
Se antes a vida adulta era marcada por marcos claros — trabalho, casamento, filhos —, hoje essas fronteiras se tornaram difusas.
O desafio, portanto, não é apenas redefinir adolescência, mas repensar o que significa ser adulto.
E talvez a pergunta mais urgente não seja até quando somos adolescentes, mas quando, de fato, nos tornamos adultos.

