É possível governar um país continental quando a própria cadeira presidencial parece sustentada por um vazio de aprovação?
A impopularidade de Lula, hoje, não é apenas um dado de pesquisa — é um fenômeno político que desafia a lógica do poder.
Ele venceu as urnas, mas perdeu rapidamente o apoio difuso que confere autoridade prática a qualquer governante.
Essa erosão de confiança não se explica apenas por erros de gestão ou crises econômicas. Há algo mais profundo em jogo.
O lulismo, que outrora se alimentou do carisma e da promessa de ascensão social, parece hoje corroído pela memória recente da polarização.
Para parte significativa da população, Lula não representa mais esperança, mas a volta de um ciclo que já demonstrou seus limites.
Sua imagem está presa em um paradoxo: é presidente, mas não consegue encarnar o papel de líder nacional.
O resultado é um governo com poder formal, mas sem densidade social suficiente para sustentar reformas ou narrativas mobilizadoras.
O Congresso percebe isso — e opera com ainda mais autonomia, ciente da fragilidade do Planalto.
O mercado também sente — reage não às palavras do presidente, mas à expectativa de quem realmente conduz a agenda econômica.
A sociedade civil, por sua vez, se mostra anestesiada: não há entusiasmo, mas também não há alternativa clara à vista.
Esse vácuo de legitimidade abre espaço para discursos paralelos, sobretudo à direita, que se alimentam da rejeição ao governo.
Não se trata apenas de um problema de imagem, mas de governabilidade. A impopularidade limita a capacidade de negociação e de imposição.
Governos impopulares, em democracias frágeis, tendem a sobreviver em modo defensivo, administrando crises em vez de propor projetos.
Nesse sentido, Lula governa mais como sobrevivente do que como estadista.
O curioso é que parte dessa impopularidade decorre do próprio passado: o mito do líder redentor agora pesa como fardo.
Quando a expectativa é messiânica, a realidade do cotidiano só pode decepcionar.
Eis o dilema: Lula ocupa a presidência, mas não habita o imaginário coletivo como presidente legítimo.
A pergunta que permanece é incômoda: até quando um governo pode resistir apenas na base da formalidade institucional, sem o combustível da legitimidade social?
Se a resposta não vier em forma de reconstrução de confiança, talvez o país esteja diante de um ciclo onde governar significa apenas administrar a própria impopularidade.

