O que acontece quando o debate público deixa de ser uma disputa de ideias e passa a ser uma guerra de rótulos?
Na arena política contemporânea, termos como “fascista”, “racista” ou “nazista” perderam precisão conceitual para se transformar em projéteis verbais.
Não se trata de identificar fenômenos históricos ou práticas discriminatórias de fato. Trata-se de esvaziar o adversário de humanidade.
O mecanismo é simples: ao reduzir o oponente a uma caricatura monstruosa, cria-se a permissão tácita para hostilizá-lo, ignorá-lo ou, em casos extremos, atacá-lo fisicamente.
Essa estratégia não é nova. Regimes autoritários de todas as cores usaram a desumanização como etapa preliminar da violência.
Da propaganda nazista contra judeus à retórica stalinista contra “inimigos do povo”, a lógica é sempre a mesma: primeiro o rótulo, depois o linchamento.
No caso atual, a novidade é a banalização. A palavra “fascista”, por exemplo, virou sinônimo de “quem discorda de mim”.
Essa inflação semântica corrói o próprio debate democrático, pois anula a possibilidade de diálogo racional.
Quando alguém é carimbado como “nazista” sem base factual, qualquer tentativa de argumentação é desqualificada de saída.
É um atalho retórico que dispensa provas, raciocínio ou empatia. Basta a etiqueta.
O efeito prático é devastador: cria-se uma atmosfera em que conservadores são tratados não como cidadãos com ideias contestáveis, mas como monstros a serem expurgados.
E é justamente nesse ponto que a violência simbólica pode abrir caminho para a violência real.
Se o outro não é mais visto como humano, a agressão contra ele se torna moralmente aceitável para alguns.
A retórica, então, deixa de ser apenas discurso. Transforma-se em convocação tácita.
É nesse terreno que extremistas encontram justificativa para ataques. Afinal, “quem luta contra monstros” acredita ter licença para agir sem limites.
Curiosamente, essa lógica costuma ser usada em nome da “tolerância” ou do “antifascismo”, mas produz o oposto: intolerância e autoritarismo travestidos de virtude.
O problema não está em criticar ideias conservadoras, mas em reduzir pessoas inteiras a caricaturas desumanizantes.
Se a democracia se sustenta na disputa de visões de mundo, trocar argumentos por rótulos é serrar o galho em que todos estamos sentados.
E talvez essa seja a reflexão mais urgente: enquanto tratarmos adversários políticos como monstros, quem se torna monstruosa é a própria democracia.

