Pode uma história isolada expor fissuras profundas em todo um sistema de saúde e justiça? O recente alerta de saúde emitido em Ohio, após a prisão de uma trabalhadora sexual vivendo com HIV, sugere que sim.
O episódio foi tratado pela imprensa local como um risco imediato à comunidade. Porém, o que realmente está em jogo vai além da manchete alarmista: é a interseção tensa entre saúde pública, criminalização e marginalidade social.
O fato em si é simples. Uma mulher foi detida por exercer trabalho sexual sem revelar sua condição sorológica. A lei estadual permite a acusação criminal nesses casos, sob a justificativa de “proteção à saúde coletiva”.
Mas o que essa narrativa esconde? Primeiro, que o HIV deixou de ser uma sentença de morte há décadas. Com tratamento adequado, a carga viral se torna indetectável e, portanto, intransmissível. A ciência reconhece isso. A legislação, não necessariamente.
Ao insistir em enquadrar a questão como crime, o Estado reforça o estigma. O medo se sobrepõe à evidência científica, e a trabalhadora sexual é transformada em bode expiatório de uma ansiedade social mal resolvida.
Essa lógica produz um paradoxo: em nome da saúde pública, cria-se um ambiente que desestimula testagem e tratamento. Afinal, quem se arrisca a descobrir o diagnóstico se isso pode virar arma de criminalização?
Além disso, a escolha da narrativa não é neutra. Não se trata apenas de “uma pessoa com HIV”, mas de “uma prostituta com HIV”. A sobreposição de estigmas — doença e trabalho sexual — potencializa a demonização.
Aqui, a política de saúde colide com a moralidade. A trabalhadora sexual não é vista como cidadã portadora de direitos, mas como ameaça ambulante.
Há um dado incômodo: em vários estados americanos, legislações semelhantes permanecem ativas, embora organismos internacionais como a ONU e a OMS defendam sua revisão. O consenso científico é de que criminalizar não previne a transmissão, apenas agrava vulnerabilidades.
O caso de Ohio, portanto, é menos sobre uma pessoa específica e mais sobre uma estrutura que insiste em lutar contra fantasmas dos anos 1980.
É como se estivéssemos presos a um retrovisor, enquanto o carro da ciência já segue em outra direção. A pergunta que ecoa é: a quem serve esse atraso?
Certamente não à população. A verdadeira prevenção passa por acesso universal a tratamento, educação sexual sem preconceitos e políticas públicas que dialoguem com a realidade, não com tabus.
Criminalizar é mais barato politicamente. Dá a ilusão de ação rápida e firme, enquanto empurra para debaixo do tapete a complexidade do tema.
No fundo, essa escolha revela algo mais profundo: a dificuldade da sociedade em lidar com corpos e práticas que desafiam sua moralidade estabelecida.
A trabalhadora sexual com HIV em Ohio é, nesse sentido, símbolo de uma luta maior: a disputa entre ciência e preconceito, saúde pública e controle social, direitos individuais e moral coletiva.
Não se trata de defender irresponsabilidade, mas de reconhecer que a criminalização não protege ninguém. Apenas reforça barreiras.
O futuro da política de saúde dependerá de nossa capacidade de abandonar o pânico moral e abraçar a evidência científica. O contrário significa perpetuar injustiças em nome de uma falsa sensação de segurança.
E, talvez, essa seja a lição incômoda deixada por Ohio: não é o vírus que ameaça mais, mas a persistência de velhos estigmas travestidos de política pública.

