Quem atira contra um animal indefeso está, na verdade, atirando contra algo muito maior: a nossa própria humanidade.
A história de Maria, a jovem macaca-prego encontrada baleada na Gávea, expõe não apenas um ato de crueldade, mas um sintoma de degradação social.
O disparo que atravessou sua coluna e ameaça deixá-la paraplégica não foi fruto do acaso. É resultado de um contexto em que violência se banaliza e vidas — humanas ou não — perdem valor.
Maria ganhou um nome, uma narrativa, uma rede de apoio. Mas quantos outros animais, igualmente atingidos, permanecem invisíveis?
O caso só ganhou repercussão porque o Instituto Vida Livre decidiu torná-lo público, transformando dor em denúncia.
A radiografia da macaca revela mais do que a posição da bala: revela também o lugar em que estamos como sociedade.
Há algo perverso na naturalidade com que a brutalidade se espalha. Se a bala que atinge um macaco nos choca, por que não nos espantamos com tantas outras que atravessam corpos diariamente?
O episódio de Maria não é isolado. É parte de um padrão de violência difusa, que não reconhece fronteiras entre humanos e não humanos.
Atacar um animal silvestre em plena zona urbana mostra a ausência de limites na agressividade contemporânea.
E o que significa essa ausência? Que já não distinguimos entre o espaço da convivência e o espaço da dominação.
Maria, agora imóvel das patas traseiras, tornou-se símbolo involuntário de resistência.
Sua possível cirurgia representa não apenas a chance de recuperar movimentos, mas a chance de lembrar que compaixão ainda existe.
Há ironia nisso: enquanto alguns desferem tiros, outros dedicam tempo, recursos e esperança para salvar uma vida pequena e frágil.
O contraste expõe um dilema moral: que espécie de sociedade escolhemos ser?
Uma que legitima a força e o desprezo pelo frágil ou uma que reconhece no cuidado o verdadeiro sinal de evolução?
Ao dar nome à macaca, o Instituto fez mais do que batizar. Deu-lhe identidade, e com ela, o poder de nos confrontar.
Maria já não é apenas um animal baleado. É um espelho.
O que vemos refletido, contudo, pode ser perturbador: a incapacidade de conter nossa própria violência.
Se Maria voltar a andar, será por mérito de quem acredita que cada vida importa.
E se não voltar, restará a pergunta incômoda: quantos tiros mais precisaremos dar até perceber que o alvo verdadeiro sempre fomos nós?

