Qual é o limite entre a vida privada e o espetáculo público quando cada anúncio pessoal se transforma em trending topic?
Na última sexta-feira, Thammy Miranda e Andressa Ferreira compartilharam que esperam o segundo filho.
A notícia não veio por meio de uma coletiva de imprensa ou um comunicado formal, mas por um vídeo cuidadosamente planejado.
O cenário não foi escolhido ao acaso: uma praia paradisíaca, o filho Bento de cinco anos, e a estética da felicidade plena.
Esse enquadramento revela algo além da alegria de uma família. Mostra como narrativas pessoais se convertem em capital simbólico — e, inevitavelmente, em capital midiático.
Não é trivial que o anúncio tenha saído em primeira mão no portal LeoDias, especialista em transformar intimidades em espetáculo.
O casal entende o jogo: em tempos de redes sociais, cada momento de vida pode ser também uma peça de comunicação.
O vídeo funciona como ritual contemporâneo: não apenas contar a novidade, mas contar de forma a capturar a atenção coletiva.
A gestação, que tradicionalmente pertence ao espaço do íntimo, vira agora matéria de engajamento digital.
Esse processo não é exclusivo de Thammy e Andressa. Mas, no caso deles, ganha contornos específicos.
Thammy carrega a marca de ser uma figura pública cuja trajetória foi acompanhada — e muitas vezes contestada — pela opinião alheia.
Sua transição de gênero, sua carreira e até sua vida conjugal foram sistematicamente analisadas sob a lupa da imprensa.
Cada gesto, portanto, é inevitavelmente interpretado como ato político, ainda que venha embalado como celebração familiar.
A escolha de mostrar Bento participando do anúncio não é apenas fofa. É também uma mensagem de continuidade, de pertencimento, de normalização.
Em uma sociedade que ainda debate quem “pode” ou não formar família, cada nova gravidez do casal é uma afirmação de possibilidade.
O Brasil digital, com seus algoritmos e polarizações, reage a essas cenas com intensidade: para uns, inspiração; para outros, provocação.
E é justamente aí que mora a força desse anúncio. Ele não é apenas sobre uma criança a caminho, mas sobre a disputa de símbolos na esfera pública.
A pergunta que fica é: até que ponto a felicidade privada pode ser blindada quando se transforma em narrativa coletiva?
No caso de Thammy e Andressa, talvez a resposta seja que não pode — e que, paradoxalmente, é isso que lhes confere relevância.
No fim, a gestação anunciada não diz respeito apenas a uma nova vida, mas ao modo como, no Brasil de 2025, a própria noção de família é gestada diante das câmeras.

