Ministro Flávio Dino pede investigação de brasileiros que ameaç*ram e usaram como exemplo os protestos de Nepal

O que significa, para uma democracia, quando juízes passam a ser ameaçados por suas decisões? A pergunta ganha corpo no episódio mais recente envolvendo o ministro Flávio Dino, que acionou a Polícia Federal após receber mensagens violentas nas redes sociais.

 

O estopim foi seu voto na Ação Penal 2668, em que defendeu a condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro e de outros sete réus por tentativa de golpe de Estado. No dia seguinte, vieram as ameaças.

 

Não se tratam apenas de insultos ou provocações. Entre os prints reunidos pelo ministro, há menções diretas à violência no Nepal, onde dezenas morreram em protestos recentes, incluindo o assassinato brutal da esposa do ex-primeiro-ministro Jhalanath Khanal.

 

A associação não é fortuita. Para Dino, evocar rebeliões estrangeiras com desfechos sangrentos sugere incitação organizada. Não é simples bravata, mas uma tentativa de coação no curso de um processo judicial.

 

Esse detalhe é central. Ameaças pessoais a juízes não são novidade, mas quando se tornam parte de uma engrenagem digital que mistura narrativas conspiratórias com referências internacionais, passam a operar em outra escala.

 

Vivemos uma era em que redes sociais funcionam como catalisadores de radicalização. A distância entre a palavra e o ato nunca foi tão curta. Postagens inflamadas podem rapidamente se materializar em ataques contra instituições, como já vimos em 8 de janeiro de 2023.

 

Ao registrar a ocorrência, Dino não fala apenas de si. Ele expõe um risco coletivo: o de que juízes se tornem alvos frequentes de campanhas de intimidação, minando a independência do Judiciário.

 

Aqui, cabe uma reflexão: que espécie de democracia resiste quando seus árbitros passam a decidir sob a sombra da ameaça? A imparcialidade, nesse cenário, não é apenas um ideal, mas um ato de coragem.

 

É curioso notar que o imaginário radicalizado busca inspiração fora do Brasil. O caso do Nepal, trazido como referência, parece uma tentativa de legitimar a violência como resposta a decisões judiciais. Um recado cifrado, mas claro: “isso pode acontecer aqui”.

 

Esse tipo de narrativa globalizada indica um fenômeno preocupante: a importação de símbolos e estratégias de violência política. Não se trata mais de um discurso doméstico, mas de uma conexão transnacional de ressentimentos.

 

O problema, portanto, não é apenas de segurança individual, mas de arquitetura institucional. Se juízes precisam temer por suas vidas ao votar, a balança da Justiça deixa de ser um símbolo e vira alvo.

 

A investigação da PF, nesse contexto, cumpre papel que vai além do inquérito criminal. Ela é também um gesto político no sentido mais profundo: afirmar que a lei ainda prevalece sobre a barbárie.

 

Mas a questão permanece: até que ponto o sistema brasileiro está preparado para lidar com uma era em que a violência virtual transborda para o espaço público?

 

Não basta prender autores isolados. É necessário compreender a engrenagem que transforma discursos online em ações reais. Mapear redes de incitação, rastrear financiadores, identificar ecos internacionais.

 

Se negligenciada, a ameaça contra Dino pode se repetir em escala ampliada, corroendo lentamente a legitimidade do STF e, por consequência, da democracia.

 

Talvez a maior provocação deixada por esse episódio seja esta: será que a sociedade brasileira está disposta a defender a independência judicial com a mesma força com que os extremistas a atacam?

 

Porque, no fim, não se trata apenas de proteger um ministro. Trata-se de proteger a ideia de que juízes podem decidir de acordo com a Constituição — e não sob a mira de ameaças digitais travestidas de liberdade de expressão.

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