Um pet shop é apenas um comércio ou deveria ser considerado uma extensão da família que confia nele?
A morte de uma cachorrinha sob os cuidados de um estabelecimento em Manaus levanta essa pergunta incômoda.
Para muitos, a relação com os animais de estimação deixou há muito de ser apenas utilitária.
Cães e gatos ocupam o espaço afetivo antes reservado a filhos, irmãos ou companheiros.
Quando uma família entrega seu animal a um serviço de banho, tosa ou hospedagem, não está comprando apenas conveniência.
Está, na prática, terceirizando parte de sua própria responsabilidade emocional.
Nesse contexto, a falha não é apenas técnica.
É um colapso de confiança — e a confiança, diferentemente de um produto, não pode ser reposta na prateleira.
A tragédia em Manaus, infelizmente, não é caso isolado.
Denúncias de maus-tratos, negligência e até mortes em pet shops têm se tornado frequentes em várias cidades brasileiras.
O mercado de pets cresce em ritmo acelerado, movido por um setor bilionário de consumo afetivo.
Mas a regulação, a fiscalização e os padrões de qualidade ainda caminham a passos lentos.
O episódio expõe um paradoxo: enquanto tratamos os animais como família em casa, ainda os reduzimos a “serviços” quando cruzam a porta de um pet shop.
Essa incoerência tem consequências trágicas.
A morte da cachorrinha em Manaus deveria provocar mais que indignação momentânea.
Deveria acender o debate sobre a necessidade de protocolos obrigatórios, treinamentos específicos e responsabilização efetiva.
Não basta o pedido de desculpas ou a devolução do dinheiro.
Para os tutores, o dano não é financeiro, é emocional — e, nesse caso, irreversível.
O luto por um animal não é menor que o luto por uma pessoa próxima.
Pesquisas já demonstraram que a perda de um pet ativa os mesmos circuitos de dor no cérebro humano.
Ignorar esse aspecto é, de certa forma, desumanizar os próprios humanos.
Pois ao deslegitimar a dor por um animal, questiona-se a legitimidade da afetividade como um todo.
A questão que permanece é: quantas mortes mais serão necessárias para que o setor seja levado a sério?
Quantas famílias precisarão transformar sua dor em denúncia para que políticas públicas surjam?
O caso em Manaus não é apenas sobre uma cachorrinha perdida.
É sobre a forma como tratamos a confiança, o afeto e a responsabilidade em uma sociedade que consome amor, mas ainda hesita em protegê-lo.
Talvez, no fim, a pergunta essencial não seja “como isso aconteceu?”, mas “como ainda permitimos que continue acontecendo?”.

