O que significa quando uma das maiores redes de farmácias do país é condenada por racismo contra uma funcionária?
A notícia da indenização de R$ 56 mil à ex-colaboradora Noemi Ferrari não se resume a uma disputa trabalhista. Ela expõe uma ferida profunda no mundo corporativo brasileiro.
Racismo não é um acidente isolado. É um sistema que se infiltra nas estruturas de trabalho, moldando quem ascende, quem permanece à margem e quem paga o preço.
Noemi não enfrentou apenas um agressor individual, mas uma engrenagem que tolera práticas discriminatórias sob o verniz da normalidade.
A condenação é simbólica, mas insuficiente. O valor pago não mede o impacto psicológico, social e profissional de alguém que carrega na pele o peso do preconceito.
O problema maior é que a punição recai sobre o caixa da empresa, mas raramente atinge as responsabilidades pessoais de gestores ou colegas envolvidos.
Assim, a lógica se repete: paga-se a multa, preserva-se a reputação institucional e o ciclo permanece intacto.
A pergunta incômoda é: quanto vale a dignidade de um trabalhador negro em uma empresa multibilionária?
No Brasil, a resposta judicial ainda costuma ser tímida, quase simbólica, como se a dor fosse precificada abaixo do mercado.
O caso Raia Drogasil, no entanto, lança luz sobre a urgência de se discutir não apenas reparações, mas transformações.
Treinamentos de diversidade e campanhas internas têm sido soluções frequentes, mas frequentemente se limitam a slogans.
Sem mecanismos claros de responsabilização, esses programas se tornam vitrines corporativas que escondem mais do que resolvem.
O julgamento de Noemi é também o julgamento de uma cultura empresarial que naturaliza o silêncio diante da exclusão.
Se a farmácia é o espaço da cura, como pode ser também cenário da doença social que é o racismo?
Empresas que tratam a questão como um problema de compliance perdem a chance de assumir uma posição ética transformadora.
A condenação da Raia Drogasil deve servir menos como castigo e mais como alerta: o mercado está começando a cobrar coerência.
Consumidores, cada vez mais atentos, já não se satisfazem com campanhas publicitárias inclusivas enquanto práticas internas contam outra história.
O caso de Noemi Ferrari não é exceção; é sintoma. E sintomas só desaparecem quando a causa é enfrentada de frente.
Resta saber se as empresas brasileiras estão dispostas a olhar para dentro, ou se continuarão tratando o racismo como uma despesa eventual em sua contabilidade moral.

