Quanto vale uma redação?
No estado de Goiás, a resposta é precisa: até dez mil reais, se atingir a pontuação máxima no ENEM.
O anúncio do governador trouxe aplausos imediatos de alguns setores.
Para muitos, é o incentivo que faltava para transformar dedicação em recompensa tangível.
Mas a pergunta incômoda persiste: será que dinheiro é a melhor forma de estimular o aprendizado?
Ou estamos transformando a educação em mais uma competição regida pela lógica do mercado?
A medida cria um paradoxo interessante.
O ENEM, concebido como avaliação diagnóstica, agora ganha contornos de loteria acadêmica.
Ao premiar apenas notas altíssimas, o programa reforça a ideia de que sucesso escolar é privilégio de poucos.
E, de certo modo, naturaliza a exclusão dos que já enfrentam desvantagens sociais e educacionais.
Não se trata de negar o esforço individual.
Escrever uma redação de 900 pontos exige disciplina, leitura e treino.
Mas a meritocracia, quando aplicada sem olhar para desigualdades estruturais, tende a reproduzir as mesmas injustiças que diz combater.
Em escolas com carência de professores e bibliotecas, quantos alunos realmente têm chance de concorrer?
Há também um efeito simbólico relevante.
O prêmio sugere que conhecimento só vale quando pode ser convertido em cifras.
Educar, no entanto, é mais do que preparar jovens para disputas de desempenho.
É capacitá-los para pensar criticamente, para dialogar com um mundo em transformação.
Premiar os melhores pode parecer justo.
Mas corre-se o risco de transformar a sala de aula em arena, onde cooperação dá lugar à competição.
Uma política pública deveria equilibrar estímulo individual com inclusão coletiva.
Caso contrário, o prêmio se torna espetáculo, mais útil para manchetes do que para mudar realidades.
O gesto do governo goiano revela algo maior: a tentação de simplificar a educação em números e rankings.
Como se o valor do saber pudesse ser medido em pontos e convertido em cheques.
A longo prazo, a questão não é quem ganhará dez mil reais.
É se, nesse processo, não estamos empobrecendo o próprio sentido de aprender.

