Quando Damares Alves pergunta se alguém lembraria Jair Bolsonaro da hora do remédio dentro de um presídio, a dúvida é retórica.
O objetivo não é obter resposta, mas plantar a ideia de que a prisão do ex-presidente equivaleria a uma sentença de morte.
A frase não surge no vazio.
Ela se insere em uma estratégia calculada de seus aliados: transformar qualquer ameaça judicial em risco existencial.
Nesse enredo, Bolsonaro não seria apenas um réu.
Seria um mártir político, cercado de inimigos e desamparado pelo sistema.
O recurso à saúde é particularmente eficaz.
Poucos argumentos sensibilizam tanto a opinião pública quanto o medo de ver alguém fragilizado em condições adversas.
No entanto, o subtexto é outro.
A declaração questiona, de forma indireta, a capacidade do Estado brasileiro de garantir direitos básicos até mesmo a seus presos mais notórios.
Trata-se de uma inversão curiosa.
A mesma figura política que sempre defendeu o endurecimento penal agora é retratada como potencial vítima da máquina punitiva.
Esse movimento revela a plasticidade do discurso político.
As regras que servem para “outros” parecem insuficientes quando atingem alguém do próprio grupo.
Damares, ao dramatizar a questão, toca em uma ferida real: a precariedade do sistema carcerário.
Mas o faz não para propor soluções universais, e sim para blindar um aliado específico.
A consequência é dupla.
De um lado, cria-se a imagem de um líder perseguido; de outro, legitima-se a ideia de que certos indivíduos deveriam estar acima das condições que o próprio país impõe a milhares de presos anônimos.
Essa retórica mobiliza o medo como ferramenta política.
Não se discute culpa ou inocência, mas sobrevivência — e quem ousaria ser contra o direito à vida?
O problema é que, ao deslocar o debate para o terreno da vitimização, perde-se a oportunidade de discutir os fatos concretos que levaram Bolsonaro a ser alvo da Justiça.
E, em última instância, esvazia-se a confiança no sistema jurídico como um todo.
A pergunta de Damares, portanto, não é sobre remédios.
É sobre narrativa: transformar uma eventual prisão em ato desumano, e qualquer julgamento em perseguição.
O risco real não é Bolsonaro esquecer a medicação.
É a democracia brasileira esquecer que igualdade perante a lei não admite exceções personalizadas.
E a questão que fica é simples, mas incômoda:
quando um político se apresenta como mártir antes mesmo de ser julgado, quem, de fato, está em perigo — ele ou as instituições?

