Bento, filho de Thammy Miranda, está “a cara do pai”. A frase, repetida com naturalidade em conversas e manchetes, parece banal. Mas será que ela é apenas uma constatação visual ou um reflexo de algo mais profundo sobre como entendemos herança, identidade e pertencimento?
A genética sempre foi tratada como um campo quase sagrado, carregado da ideia de destino biológico. Entretanto, a história de Bento e Thammy expõe uma fissura nesse determinismo: até que ponto enxergamos semelhanças físicas, e até que ponto projetamos expectativas sociais?
Curiosamente, o comentário sobre a semelhança não se restringe à aparência. Ele traz embutido um reconhecimento simbólico: a noção de paternidade legitimada pela presença, pelo vínculo e pelo afeto, mais do que pela simples biologia.
Se durante séculos a hereditariedade foi usada como justificativa de poder, linhagem e até de exclusão, hoje ela ganha contornos mais flexíveis. A imagem de Bento, comparada à do pai, funciona como metáfora de uma sociedade que começa a rever o que significa “ser família”.
Mas há um detalhe incômodo. O espanto — às vezes velado, às vezes explícito — que acompanha tais comparações denuncia o quanto ainda carregamos resquícios de um pensamento rígido sobre gênero e transmissão genética.
O fato de tantas pessoas destacarem a semelhança entre Bento e Thammy evidencia não só curiosidade, mas também a necessidade inconsciente de validar o arranjo familiar diante de uma ordem social tradicional.
Como se, ao afirmar “ele é a cara do pai”, estivéssemos garantindo a continuidade de uma lógica que muitos acreditam estar sob ameaça.
Nesse sentido, a discussão ultrapassa a esfera privada e se transforma em campo de batalha simbólico. Bento não é apenas uma criança; é também, sem querer, um ícone de disputa sobre como enxergamos identidade e parentesco no século XXI.
É revelador que a semelhança física tenha se tornado manchete. Não porque crianças não se pareçam com seus pais — isso é o esperado. Mas porque, nesse caso específico, a semelhança carrega um subtexto político.
Cada traço reconhecido no rosto do menino atua como argumento em debates que, na prática, dizem respeito a direitos civis, representações de gênero e preconceitos persistentes.
Talvez por isso a frase, aparentemente leve, tenha tanto peso. Ela funciona como selo de autenticidade, como se dissesse: “Está tudo dentro da ordem natural das coisas”.
No entanto, a questão que se impõe é: por que precisamos tanto dessa confirmação? O que está em jogo quando uma sociedade se mostra surpresa com o óbvio?
A resposta pode estar na dificuldade de lidar com transformações que desestabilizam certezas antigas. O corpo, afinal, é o palco onde projetamos nossas ansiedades culturais.
Ver Bento como reflexo do pai é também uma forma de reafirmar que novas configurações familiares não são apenas possíveis, mas palpáveis, visíveis, incontornáveis.
Ao mesmo tempo, a insistência em destacar essa semelhança revela um paradoxo: tentamos normalizar a diferença apontando justamente o que é familiar e reconhecível.
Em outras palavras, só conseguimos aceitar o novo quando ele traz consigo algo que nos remete ao velho.
O caso de Bento e Thammy mostra que a genética, longe de ser apenas um jogo de cromossomos, é também um campo de significados sociais. O DNA importa, mas o olhar coletivo importa tanto quanto.
Talvez a verdadeira herança que Bento carrega não esteja apenas no rosto que lembra o pai, mas na capacidade de provocar uma sociedade inteira a repensar o que, afinal, significa “parecer com alguém”.
E se, no futuro, ao invés de perguntarmos a quem uma criança “saiu parecida”, passarmos a nos questionar sobre quais mundos ela ajudará a construir?

