Em Nepal, o quadro político atingiu um ponto de ebulição quando, no início de setembro de 2025, o governo suspendeu o acesso a 26 redes sociais populares, incluindo Facebook, Instagram, WhatsApp e X, sob o pretexto de conter notícias falsas. Essa medida foi interpretada como uma tentativa de silenciar vozes críticas e controlar a narrativa pública, gerando revolta entre os cidadãos mais jovens, especialmente aqueles identificados como Geração Z.
A estratégia adotada pelo governo comunista, liderado pelo primeiro-ministro K.P. Sharma Oli, foi recebida como um ataque direto à liberdade de expressão. A paralisação das plataformas digitais funcionou como um estopim, desencadeando protestos de grande intensidade que tomaram conta da capital, Katmandu, e se espalharam por diversas regiões do país, sinalizando uma crise institucional de proporções inéditas.
Nas ruas, manifestantes, liderados por jovens entre 15 e 28 anos, uniram-se em torno de hashtags como #NepoBabies, que ironizava o favorecimento indevido de parentes da elite política. Vídeos veiculados no TikTok, que mostravam ostentação de riqueza por membros de famílias influentes, reacenderam um sentimento de frustração em um país marcado pela desigualdade econômica.
A mobilização midiática passou a retratar um cenário de rebeldia contra o autoritarismo. A revolta social, inicialmente organizada por meios digitais, ganhou corpo in loco — com invasões ao Parlamento, à sede do governo e à Suprema Corte. Esses locais históricos foram incendiados por manifestantes que viam no fogo um símbolo de ruptura com o sistema vigente.
Em meio ao caos, o país enfrentou um momento trágico: 19 pessoas foram mortas e centenas ficaram feridas. O uso de força letal por parte das forças de segurança foi denunciado por organizações de direitos humanos como um ato de desprezo pela vida — críticas que ecoaram dentro e fora das fronteiras nepalesas.
A esposa do primeiro-ministro não escapou à violência. Foi durante um incêndio, resultado da revolta popular, que ela perdeu a vida — um episódio que intensificou ainda mais o clima de comoção e ira nacional. Moradias de ministros também foram destruídas, reforçando o caráter explosivo da insatisfação coletiva.
Surpreendentemente, mesmo depois da suspensão das plataformas, o movimento continuou com força total. Parlamentares renunciaram em bloco, cinco ministros do gabinete deixaram seus cargos e o Parlamento, esvaziado, foi ocupado por jovens que declararam que a legitimidade das instituições havia se esgotado.
O retorno das redes sociais, anunciado pelo governo, não foi suficiente para conter a fúria que já estava instaurada. A repressão perdeu o controle, e a crise se tornou análoga a levantes recentes no sul da Ásia, como os ocorridos em Bangladesh e Sri Lanka, onde governos foram derrubados após ondas de revolta similares.
Analistas da região ressaltam que o descontentamento não se limitava à censura digital, mas refletia uma ruptura profunda entre a juventude nepalense e as instituições. O fosso entre a classe política e a realidade cotidiana dos jovens ficou evidente, representando uma ameaça à estabilidade política histórica do país.
Para o público jovem, especialmente em um país onde o desemprego juvenil ultrapassa 20% e a renda média per capita é extremamente baixa, ficar sem acesso às redes sociais foi o último estalo de uma sequência de falhas de governança. Foi um reflexo claro de desconexão entre quem lidera e quem vive no país real.
O processo político instalado tinha sinais de desgaste profundo. A censura digital, longe de conter críticas, amplificou a expressão pública. Foi como acender um fósforo em um barril de pólvora: a revolta explodiu.
Enquanto isso, o governo se via acuado. A renúncia coletiva de ministros, associada à implosão da sede legislativa, escancarou o fim da linha para uma liderança que apostou na contenção autoritária como saída.
Na percepção geral, o episódio de autoritarismo digital se tornou um símbolo do fracasso de políticas restritivas em face de uma sociedade conectada e cada vez mais politizada — especialmente entre os jovens que não aceitam ser calados.
A lógica da regulação por meio do autoritarismo se mostrou sem fôlego diante de uma mobilização espontânea que se articulou mesmo fora das plataformas oficiais, migrando para canais remanescentes ou presenciais, reafirmando que onde existe conteúdo proibido digitalmente, a resistência encontra outros caminhos.
A crise nepalense demonstrou que, em ambientes altamente digitalizados, o uso da coerção estatal corre o risco de provocar a implosão das próprias estruturas democráticas. E que a liberdade informa e inflama movimentos mais fortes do que qualquer controle top-down.
Em última análise, a reabertura das redes foi apenas uma resposta tardia a um problema que já havia ultrapassado o digital. Era impossível voltar atrás sem enfrentar as consequências de meses de tensão não resolvida e de juventude desencantada exigindo representatividade e mudança.
Esse episódio, ainda recente, já ecoa como um alerta: governos que tentam fechar o espaço público de debate digital arriscam transformar suas próprias falhas em combustível para revolução — e perderem, em pouco tempo, a legitimidade que desconheciam estar prestes a ruir.

