Se o salário mínimo fosse suficiente para viver, por que tantos brasileiros sobrevivem com dívidas e privações? A pergunta ecoa sempre que o Dieese divulga seu cálculo de “salário mínimo necessário” — e a diferença com o valor oficial beira o absurdo.
Segundo o levantamento mais recente, o mínimo deveria ser de R$ 7.147,91. Hoje, é de R$ 1.518. A discrepância não é apenas estatística: é um retrato da desigualdade.
O cálculo considera a cesta básica mais cara do país, em São Paulo, e as despesas médias de uma família de quatro pessoas: alimentação, moradia, saúde, transporte, lazer, previdência. Em outras palavras, o básico para viver com dignidade.
Na prática, o valor pago pelo governo cobre apenas 19,9% dessas necessidades. Ou seja, oito em cada dez reais necessários para o sustento familiar simplesmente não existem no bolso do trabalhador.
O Dieese realiza esse estudo desde 1959. E embora ele não tenha efeito legal sobre o governo, tornou-se um termômetro da desigualdade brasileira. Serve de munição para sindicatos, pesquisadores e entidades sociais.
A defasagem não é novidade, mas cresce em momentos de inflação alta. O trabalhador sente no mercado o que a estatística comprova: o salário oficial não acompanha o custo de vida.
A matemática é cruel. Enquanto o necessário sobe para mais de sete mil reais, a proposta oficial para 2026 prevê apenas R$ 1.631 — R$ 113 acima do atual. Um reajuste que, na prática, não altera o abismo.
O contraste é ainda mais evidente quando se observa que, em agosto de 2024, o mínimo necessário já era R$ 6.606,13. A curva de crescimento do custo de vida é mais rápida que a dos salários.
No dia a dia, isso significa escolhas impossíveis. Uma família precisa decidir entre pagar o aluguel ou investir na educação dos filhos, entre comprar carne ou comprar remédios.
A retórica oficial insiste em que o mínimo garante o “essencial”. Mas qual é esse essencial? Sobreviver sem lazer, sem segurança alimentar plena, sem acesso a saúde adequada?
A ideia de “mínimo” no Brasil é, no fundo, uma ficção. Ele não estabelece um patamar de dignidade, mas de sobrevivência precária.
E essa precariedade se reproduz em cascata: desvalorização da mão de obra, informalidade, endividamento e queda na qualidade de vida.
Curiosamente, o país que produz toneladas de alimentos e energia, que exporta riquezas naturais, não consegue garantir que seus cidadãos tenham acesso a uma vida minimamente confortável.
A cada nova divulgação do Dieese, repete-se o mesmo ritual: manchetes, indignação momentânea, silêncio posterior. A estrutura permanece intacta.
A pergunta incômoda é: por que a distância entre o salário necessário e o oficial não gera mais revolta social? O que naturalizamos como aceitável?
Talvez porque o trabalhador esteja tão ocupado em sobreviver que não sobre energia para contestar. A desigualdade brasileira não é só econômica — é também política e psicológica.
Enquanto isso, o governo administra pequenos reajustes como se fossem conquistas históricas, ignorando a realidade do prato vazio e da conta atrasada.
O salário mínimo no Brasil não é um número técnico. É um espelho social. E o reflexo que ele mostra é o de um país que insiste em chamar de mínimo aquilo que está muito abaixo do necessário para viver.
A questão permanece: até quando aceitaremos sobreviver quando deveríamos, no mínimo, viver?

