“Ou seja, quem manda é o Supremo, não o Congresso eleito. O poder emana dos tribunais, não emana do povo”
Caio Coppolla proferiu essa sentença com a frieza de quem quebra um consenso.
Ele a fez no programa O Grande Debate, na CNN, na quinta-feira, 4 de setembro.
“Se o Brasil vivesse uma situação de normalidade democrática, Bolsonaro não estaria sendo processado pela tentativa não tentada de um crime imaginário, em um tribunal incompetente, por juízes suspeitos e impedidos” — suas palavras cortantes ecoaram na mídia.
É um rompante retórico que mistura diagnóstico institucional e ataque direto ao Judiciário.
O ponto é claro: para Coppolla, o Supremo, e não o Congresso ou o eleitor, exerce o comando efetivo.
Ele invoca o artigo constitucional que confere ao Legislativo o poder de anistiar, argumentando que esse direito foi usurpado.
“Em uma democracia plena, se alguém fosse injustamente processado, o Congresso teria o poder de anistiá-lo, juntamente com outros perseguidos políticos, como estabelecem as prerrogativas do texto constitucional” — ele reclama, com amargura contida.
A declaração é dupla: por um lado, ele reclama de um processo judiciário que teria extrapolado sua legitimidade.
Por outro, evoca o vazio ético de um tribunal considerado parcial.
A oposição, enquanto isso, responde com um projeto de lei que visa anistiar Bolsonaro desde 14 de março de 2019, data que marca o início do inquérito das fake news no STF — e assim permitir sua candidatura futura.
Essa articulação legislativa é apresentada como correção de rota diante de um Judiciário que perdeu sua imparcialidade.
Coppolla vai além: descreve o tribunal como “incompetente”, “suspeito” e presidido por um juiz que se declara adversário político do réu.
Essa tensão entre o Legislativo que intervém e o Judiciário que decide cria um vácuo em que o povo fica ausente.
O conflito não é novo, mas ganha peso na orquestração midiática que o próprio programa oferece.
Ao invocar a anistia parlamentar como corretivo a um suposto excesso judiciário, ele demanda a volta da política sobre a jurisprudência.
A retórica sacrifica a mesura em nome do efeito dramático.
Com isso, não discute apenas os méritos do processo contra Bolsonaro — questiona a própria lógica de poder republicana.
O embate se arrasta como um duelo simbólico entre a decisão popular e o veredicto judicial.
Mas a crise é real: se o pacto democrático cede espaço ao arbítrio jurisprudencial, entramos em terreno de erosão institucional.
É nesse ponto que a análise deve permanecer atenta: a segurança jurídica depende da confiança no tribunal e na legitimidade política do Legislativo.
Sem essa base, qualquer ação, seja judicial ou legislativa, corre o risco de ser tomada como instrumento de poder, não de justiça.
E a pergunta incômoda segue viva: quando o tribunal parece interpretar o povo em surdina, e o Congresso reprime esse tribunal, quem, afinal, representa a legitimidade democrática?

