Fáfá de Belém ironiza o uso de procedimentos: “Com essa carinha de 69. Sem botox”

Há algo de desconfortável quando uma artista, ao chegar aos 69 anos, decide celebrar o tempo não como fardo, mas como conquista. Fafá de Belém fez exatamente isso: “sem procedimentos”, disse, quase como um manifesto. Mas o que há por trás dessa declaração aparentemente simples?

No universo do entretenimento, a passagem do tempo costuma ser vista como ameaça. Rugas são apagadas, cabelos são alisados, corpos são esculpidos em nome da permanência de uma juventude impossível. Fafá, ao se afirmar fora desse circuito, desafia uma lógica de mercado que cobra eternidade das figuras públicas.

Não é apenas sobre estética. É sobre o direito de envelhecer sem pedir desculpas. Num país obcecado por cosmética e cirurgias, uma artista recusar a padronização do “rejuvenescimento compulsório” é um ato de resistência cultural.

E não se trata de ingênua negação da vaidade. Fafá sempre cultivou a imagem, os gestos exuberantes, a voz que ocupa espaços. Mas aos 69, parece deslocar o foco: a força não está mais em parecer jovem, e sim em sustentar a própria verdade.

Curiosamente, sua declaração ressoa em um momento em que o culto ao “natural” convive com a indústria dos filtros digitais. O paradoxo é evidente: quanto mais se fala em aceitação, mais recursos tecnológicos surgem para disfarçar a idade.

Fafá rompe esse ciclo ao expor-se sem aditivos. Em vez de negar o tempo, o incorpora como parte de sua narrativa artística. Afinal, para quem vive de interpretar emoções, o corpo marcado pelos anos pode ser ferramenta, não obstáculo.

A indústria, contudo, não é neutra. Mulheres, em especial, são submetidas a pressões infinitamente maiores. Homens grisalhos são chamados de charmosos; mulheres com rugas, de “malcuidadas”. O gesto de Fafá só ganha força nesse cenário desigual.

Ao proclamar sua escolha, ela não apenas fala de si, mas expõe o machismo estrutural que dita regras sobre como uma mulher deve se apresentar após determinada idade. É, no fundo, um questionamento político.

Seus 69 anos não são apenas número. São uma trajetória que inclui resistência à ditadura, militância pela Amazônia, presença em campanhas sociais. A imagem “sem procedimentos” é coerente com quem sempre usou a arte como trincheira.

A celebração de sua idade carrega ironia. Num país onde mulheres maduras são frequentemente empurradas para a invisibilidade, Fafá se exibe em plena luz, rindo, cantando, dizendo: “estou aqui, inteira, sem retoques”.

Isso obriga o público a encarar uma pergunta incômoda: por que é tão difícil aceitar que o tempo também produz beleza? A resposta talvez esteja em um mercado que lucra com inseguranças, e não com aceitação.

O discurso da cantora vai na contramão do consumo. Não é manual de conduta — cada um é livre para recorrer ou não a procedimentos estéticos —, mas o gesto abre espaço para refletir sobre autonomia: estamos escolhendo por nós ou pelo olhar alheio?

Há, ainda, um aspecto simbólico. Aos 69, idade carregada de referências culturais, Fafá faz da maturidade um espetáculo. O riso aberto e a voz potente ecoam como uma recusa à lógica de “desgaste”, preferindo a ideia de plenitude.

E se sua fala soa como “gabação”, como disse em tom provocador, talvez seja necessário mesmo algum exagero. Num ambiente saturado de corpos fabricados, a exibição de um corpo real é quase escandalosa.

Isso nos leva a outra questão: será que autenticidade virou, paradoxalmente, o produto mais raro da cultura pop? Quando tudo é mediado por retoques digitais, mostrar-se como se é pode ser o ato mais subversivo.

Ao celebrar os 69 anos “sem procedimentos”, Fafá de Belém não apenas desafia convenções estéticas. Ela devolve ao público a responsabilidade de repensar suas próprias exigências sobre o envelhecimento.

Esse gesto tem impacto cultural: ao naturalizar as marcas do tempo, abre espaço para outras mulheres ocuparem a cena sem medo da idade. Afinal, representatividade também se faz com rugas.

No fim, sua escolha não é sobre negar avanços da medicina estética, mas sobre afirmar autonomia. O corpo, afinal, é território político. E Fafá, mais uma vez, sabe transformar palco em trincheira.

Aos 69, ela não se limita a comemorar. Ela provoca. Obriga-nos a encarar um espelho desconfortável e perguntar: estamos envelhecendo de acordo com nossos desejos ou apenas obedecendo a um script ditado pelo mercado?

Seja qual for a resposta, o fato é que Fafá de Belém conseguiu algo raro. Transformou sua própria idade em notícia — não pelo medo do tempo, mas pela coragem de abraçá-lo.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Menina de 7 anos vence a leucemia após 2 anos de tratamento e mãe diz; “Deus é o único responsável pela cura”

Correios ampliam prejuízo no segundo trimestre, e rombo vai a R$ 4,3 bilhões em 2025