Quem disse que a Independência é só um evento histórico e não uma ferramenta política?
Flávio Bolsonaro convocou apoiadores para as ruas no 7 de Setembro, embalado por críticas ao governo Lula.
O gesto parece corriqueiro: políticos chamam manifestações, oposição critica governo. Mas o subtexto merece atenção.
A data escolhida não é qualquer uma. O Dia da Independência foi ressignificado nos últimos anos como palco de demonstração de força.
Durante o governo Bolsonaro, as ruas tornaram-se vitrine de apoio popular — misto de festa cívica e comício.
Flávio agora busca reviver esse capital simbólico, num momento em que a família Bolsonaro tenta reconstruir narrativa após derrotas políticas e investigações judiciais.
Ao criticar o governo atual, ele não apenas se posiciona como oposição, mas tenta reocupar um território perdido: o da mobilização popular massiva.
Mas há um dilema. O 7 de Setembro pode ser interpretado como patriotismo genuíno ou como instrumentalização da bandeira nacional para fins eleitorais.
E a fronteira entre esses dois polos se tornou tênue desde que símbolos cívicos foram apropriados por grupos políticos.
O convite de Flávio funciona, ao mesmo tempo, como termômetro e ensaio. Termômetro para medir até onde a base ainda responde. Ensaio para 2026, quando seu pai pode tentar voltar à cena eleitoral.
As críticas ao governo Lula são o condimento esperado. Mais do que atacar políticas específicas, servem para reforçar a polarização — uma equação em que os Bolsonaro prosperam.
O discurso da indignação não precisa de propostas; basta apontar culpados. É uma retórica que mobiliza, mas raramente constrói.
A sociedade, nesse contexto, fica dividida entre os que enxergam o 7 de Setembro como celebração da democracia e os que o percebem como ato de contestação.
E essa dualidade é perigosa: uma data que deveria unir, cada vez mais serve para fraturar.
Flávio, ao convocar apoiadores, tenta vestir a fantasia de liderança capaz de reavivar um movimento. Mas será que a energia de 2019 e 2021 ainda existe?
As ruas já não respondem com a mesma intensidade. A fadiga política, somada às crises internas da direita, enfraqueceu o magnetismo de outrora.
Ainda assim, subestimar a capacidade de mobilização do clã seria ingenuidade. Mesmo em menor escala, os atos funcionam como manutenção da chama simbólica.
A crítica ao governo Lula, por sua vez, revela outro cálculo: manter vivo o antagonismo direto, porque sem inimigo declarado, o bolsonarismo perde razão de ser.
É uma estratégia conhecida: deslocar a independência nacional para a narrativa da “libertação” de um suposto inimigo interno.
Mas a pergunta que fica é: até quando o país aceitará que sua maior data cívica seja sequestrada como palanque de disputas políticas?
Se o 7 de Setembro se cristalizar como instrumento de campanhas, perderemos algo maior: a capacidade de celebrar o que nos une como nação, independentemente de quem governa.

