O Governo lança o Gás do Povo num momento em que o gás de cozinha pesa mais no orçamento do que o próprio prato na mesa.
A promessa soa simples: botijão gratuito para 15,5 milhões de famílias, com investimento de R$ 3,57 bilhões em 2025, saltando para R$ 5,1 bilhões em 2026.
No entanto, tratar esse programa como mera transferência de renda seria infantil: ele reposiciona o gás como item essencial — quase um direito humano manifestado em política pública.
A mudança em relação ao Auxílio Gás é evidente: agora, em vez de dinheiro, há botijões retirados em revendas credenciadas — tecnicamente mais eficaz, mas politicamente mais visível.
Evidente também é o timing: lançado em 4 de setembro de 2025, com início da distribuição previsto para 30 de outubro, em pleno ano eleitoral.
Estratégia ou coincidência? O programa amplia o alcance de 5 milhões (Auxílio Gás) para 15,5 milhões de lares — um avanço impressionante, sim, mas politicamente estratégico.
Essa expansão tripla coincide com o período em que o cumprimento de promessas sociais ganha força simbólica.
No discurso oficial, o objetivo é claro: dignidade, saúde e justiça social. Evita-se mencionar que o custo recairá diretamente nos cofres públicos — já mais tensos do que o bolso do cidadão.
A distribuição via aplicativo, cartão ou QR Code aporta modernidade ao programa, mas também amplifica seu alcance simbólico — binarizando os beneficiários: aqueles que veem e os que não veem a política em ação.
E há um aspecto estrutural ignorado: o programa não altera os preços do gás nem atua sobre tributos, margem de distribuição ou concentração do setor. É paliativo, não solução estrutural.
É como dar remédio a quem está com febre, mas ignorar que o hospital está sem estrutura.
Na prática, as famílias saem do uso da lenha — uma vitória de saúde pública — mas a raiz não é atacada.
Para metade da população adulta, botijões mais baratos se convertam em alívio imediato e gratidão eleitoral. Mas para o sistema público, representa mais uma despesa.
O mecanismo revela uma ambiguidade: dignidade e dependência. Liberta do uso de lenha, mas repete o ciclo de políticas que tratam a consequência, não a causa.
A previsão de 65 milhões de botijões por ano, distribuídos conforme o tamanho das famílias, é tecnicamente elegante — até familiar demais num ciclo de curativos governamentais.
O Brasil entra no hall global de políticas de inclusão energética, mas hesita em enfrentar o que faz o gás ser caro: carga tributária, logística e falta de concorrência.
O verdadeiro teste será se o Gás do Povo gera resiliência ou dependência: alívio imediato ou adiamento de reformas estruturais profundas.
Se a programação política prevalecer sobre a estratégia de Estado, o programa pode virar símbolo do ciclo vicioso entre carência e política.
No fim, a pergunta é menos sobre botijões gratuitos e mais sobre o que está sendo vendido com eles: cidadania real ou eleitorado ampliado.
E se, anos depois, olhar-se para trás com a clareza que só o tempo oferece, veremos o Gás do Povo como marco de justiça social — ou de manipulação política?

