O que significa, politicamente, um candidato à presidência afirmar que vai “invadir uma favela” já no primeiro dia de mandato? Mais do que uma proposta, trata-se de uma imagem de choque. Uma promessa que não se sustenta na prática, mas que cumpre um papel simbólico poderoso.
Renan Santos, conhecido por sua retórica agressiva e pelo apelo a discursos de confronto, não escolhe as palavras ao acaso. Ao falar em “invasão”, aciona um imaginário de guerra, em que o Estado não é mediador, mas força de ocupação. A favela, nesse contexto, não é território cidadão, mas campo inimigo.
Essa metáfora revela a estratégia central: transformar um problema social complexo em um conflito binário, de “nós contra eles”. Ao invés de políticas públicas, a solução proposta é a violência direta. É um discurso simples, mas de impacto emocional imediato.
Historicamente, favelas foram alvo de narrativas que as associam à criminalidade, à desordem e à ameaça. A promessa de Renan Santos resgata esse estigma, ignorando que esses territórios também concentram cultura, economia popular e redes de solidariedade invisíveis ao olhar oficial.
A escolha das palavras não é apenas infeliz; ela é calculada. Serve para galvanizar um eleitorado cansado de insegurança e sedento por soluções rápidas. Ao mesmo tempo, reforça a ideia de que só a força bruta é capaz de restabelecer a ordem.
Curiosamente, a retórica da invasão ecoa estratégias políticas usadas em outros países. Nos Estados Unidos, por exemplo, candidatos conservadores prometem “tomar de volta as ruas”. Na Europa, fala-se em “retomar o controle” contra migrantes. O vocabulário é sempre de ocupação, nunca de inclusão.
Mas o que acontece quando o inimigo declarado é uma parte expressiva da própria população? Ao colocar a favela como alvo, Renan Santos não apenas ataca o crime organizado, mas reforça a estigmatização de milhões de brasileiros que vivem à margem da cidade formal.
Essa é a contradição central: a promessa é impraticável. Nenhum presidente invade uma favela. O que pode, no máximo, é intensificar políticas de segurança militarizadas — e estas, historicamente, não reduziram a violência, mas multiplicaram mortes, sobretudo de jovens negros.
O perigo, portanto, não está na exequibilidade da proposta, mas no efeito que ela produz no debate público. Ao naturalizar a linguagem da guerra, Renan Santos desloca a conversa sobre segurança para o campo da brutalidade. Fica mais difícil discutir soluções estruturais, como educação, emprego e urbanização.
O que se apresenta como ousadia é, na verdade, um atalho discursivo. É mais fácil prometer “invadir” do que admitir que a insegurança nas periferias exige décadas de investimento contínuo e políticas coordenadas entre diferentes esferas do Estado.
Há ainda outro aspecto: a promessa de invasão transforma o presidente em comandante militar, apagando o papel de instituições civis e democráticas. É a militarização da política em sua forma mais explícita.
Esse tipo de retórica também cumpre função eleitoral. Ela gera manchetes, provoca indignação e garante visibilidade. Em um cenário saturado de candidatos, frases de impacto valem mais que planos de governo.
Mas o custo social desse discurso é alto. Ele legitima a ideia de que a favela é um território de exceção, onde direitos constitucionais podem ser suspensos. Na prática, reforça uma cidadania de segunda classe.
Enquanto isso, os problemas reais — saneamento precário, transporte deficiente, falta de acesso à saúde e educação — permanecem fora do radar. O espetáculo da promessa ofusca a urgência da realidade.
Ao final, a fala de Renan Santos não deve ser lida como programa de governo, mas como sintoma. Sintoma de um país que ainda enxerga suas periferias como problema a ser controlado, e não como parte integral de sua identidade e futuro.
A pergunta que resta não é se ele cumpriria a promessa — isso é irrelevante. A questão é: por que ainda há público disposto a aplaudir a ideia de invadir o lugar onde milhões de brasileiros vivem?

