O caso envolvendo a morte da bebê Valentina, deixada sob os cuidados do irmão de apenas cinco anos, trouxe à tona um retrato doloroso de negligência e tragédia familiar.
Valentina tinha apenas oito meses quando, na madrugada de 10 de agosto, sua mãe, Vanusa Moura Ferreira, de 23 anos, decidiu ir a um baile, deixando a menina aos cuidados do irmão mais velho em sua casa no bairro de Realengo, Zona Oeste do Rio de Janeiro.
Vanusa saiu de casa por volta das 2 h da manhã, instruindo o filho de cinco anos a oferecer mamadeira à irmã se ela demonstrasse fome durante sua ausência.
Ela só retornou por volta das 8h30 da manhã, momento em que encontrou Valentina sem sinais vitais, com vizinhos aglomerados em frente à residência.
A bebê havia se engasgado com o leite enquanto o irmão tentava alimentá-la, e, mesmo com a tentativa de levá-la à Unidade de Pronto Atendimento de Magalhães Bastos, a criança já chegou ao local sem vida.
Os médicos, ao constatarem que a causa da morte foi o engasgo, identificaram também indícios de possíveis maus-tratos, o que levou à notificação imediata às autoridades.
A polícia, acompanhada de peritos, vistoriou o imóvel e constatou condições de extrema insalubridade: as paredes estavam sujas, as roupas rasgadas e o ambiente não oferecia qualquer condição segura para abrigar uma criança.
Vanusa tentou alegar que aquela teria sido a primeira vez em que deixou os filhos desacompanhados, mencionando que normalmente os deixava sob os cuidados de uma tia. Essa narrativa, entretanto, foi desmentida por vizinhos.
Moradores relataram que o abandono era algo recorrente, reforçando que a mãe frequentemente saía, deixando os filhos sozinhos por longos períodos.
Dos cinco filhos de Vanusa, somente Valentina e o irmão de cinco anos viviam com ela; os outros foram colocados sob os cuidados dos avós paternos no Pará.
Após os acontecimentos, o menino foi encaminhado ao conselho tutelar e passou a morar com uma tia. A mãe foi detida e responde por abandono de incapaz seguido de morte.
Dois dias depois, o juiz Danilo Nunes Cronemberger decretou a prisão preventiva de Vanusa. Ele recomendou que ela ficasse sob proteção no presídio, alegando ameaças recebidas por ela.
O magistrado não poupou críticas à atitude: “É repugnante a conduta da custodiada, que ocasionou, infelizmente, a morte da menor Valentina”, afirmou.
Enquanto o centro das atenções recai sobre a responsabilidade criminal de Vanusa, emerge com igual urgência o debate sobre redes de apoio social e vigilância comunitária que poderiam ter impedido a tragédia.
Esse incidente evidencia falhas agregadas: a ausência de supervisão, maus-tratos recorrentes e um sistema de proteção infantil que falhou em intervir a tempo.
A negligência permitiu que uma criança tão vulnerável ficasse sob responsabilidade de outra ainda imatura para lidar com a vida e cuidados básicos.
A sobrecarga de Vanusa com cinco filhos, somada à ausência de suporte familiar – exceto dos avós distantes – revela uma situação de vulnerabilidade social grave.
É imperativo que, além da punição, haja investimento em ações preventivas, programas de suporte a mães solo e iniciativas comunitárias que monitorem ambientes de risco.
O acompanhamento de famílias com histórico de negligência, aliado à sensibilização dos vizinhos e da comunidade escolar, poderia reduzir dramaticamente esse tipo de ocorrência.
Ao mesmo tempo, casos como este devem servir como alerta para reforçar políticas públicas que integrem saúde, assistência social e judiciário com maior eficiência.
O destino da pequena Valentina não pode se repetir. Sua história demanda não só justiça, mas transformação estrutural que antecipe riscos e proteja vidas infantis.

