O número de brasileiros com grande patrimônio optando por se mudar para o exterior cresce de forma significativa. Em 2025, estima-se que aproximadamente 1.200 milionários — aqueles com patrimônio acima de US$ 1 milhão — pretendam deixar o Brasil, representando um aumento de 50 % em relação ao ano anterior, de acordo com a consultoria Henley & Partners.
Esse fluxo de saída não se trata apenas de mudança de residência. A movimentação financeira correspondente ao êxodo chega a US$ 8,4 bilhões, o que, considerando a cotação atual de R$ 5,48 por dólar, representa cerca de R$ 46 bilhões saindo do país.
Quando comparado globalmente, o Brasil ocupa a sexta posição em termos de êxodo de milionários, atrás apenas de países como Reino Unido (16,5 mil), China (7,8 mil), Índia (3,5 mil), Coreia do Sul (2,4 mil) e Rússia (1,5 mil).
Para especialistas, a consequência vai além da perda financeira. Leonardo Chagas, analista de patrimônio e colaborador do Instituto Millenium, alerta que há também uma fuga de cérebros: empresários e executivos talentosos deixam o país, prejudicando o ambiente de inovação e competitividade.
O impacto desse movimento não se limita ao Brasil. A saída de milionários envia sinais de alerta a investidores estrangeiros. Se até os brasileiros mais ricos preferem sair, por que capital internacional investiria em território nacional?
Chagas observa que a mentalidade de quem permanece também muda. A prioridade passa a ser proteger o patrimônio no exterior, reduzindo investimentos locais e o engajamento com causas sociais ou comunitárias.
Entre os fatores que levam à decisão de migrar, a insegurança é central. Mesmo com escolta e proteção, famílias de alta renda relatam viver em constante tensão, o que frequentemente funciona como gatilho para buscar estabilidade fora do país.
Outros elementos que influenciam a saída incluem carga tributária elevada, dificuldades na aposentadoria, oportunidades profissionais limitadas, educação, qualidade de vida e a instabilidade política e econômica.
Um ponto recorrente é a sensação de rompimento do “contrato social”. Apesar de pagarem impostos altos, muitos milionários percebem retorno insuficiente em serviços públicos, sendo obrigados a arcar com saúde, educação e segurança privadas.
A volatilidade econômica, mudanças frequentes nas regras fiscais e crises cambiais também contribuem para a sensação de insegurança. Muitos buscam previsibilidade e proteção para as futuras gerações em destinos como Estados Unidos ou Portugal.
Dados do Instituto Millenium mostram que entre 2014 e 2024 o Brasil perdeu cerca de 18 % de sua população milionária, evidenciando que a fuga de patrimônio é uma tendência contínua e preocupante.
Esse êxodo reduz a circulação de capital no país, impactando financiamentos, empregos, consumo e investimentos imobiliários, além de enfraquecer a arrecadação e a capacidade do Estado de ampliar serviços e infraestrutura.
Setores que dependem diretamente da elite econômica, como luxo, arquitetura e gestão de patrimônio, sofrem com a diminuição da demanda, comprometendo a sustentabilidade desses segmentos.
Mesmo com barreiras legais e fiscais em destinos tradicionais como EUA, Portugal e Itália, brasileiros ricos continuam migrando em busca de segurança jurídica, tributária e política.
Segundo a Henley & Partners, os Emirados Árabes Unidos se destacam como destino preferencial, oferecendo tributação zero para pessoas físicas e infraestrutura avançada, atraindo diversos milionários brasileiros.
Outros destinos emergentes incluem Estados Unidos, Itália, Suíça, Arábia Saudita, Portugal, Grécia, Canadá e Austrália, todos com fatores atrativos como estabilidade, qualidade de vida e ambientes regulatórios favoráveis.
Na América Latina, o Brasil lidera o êxodo de milionários, enquanto países como Colômbia e México perdem cerca de 150 e a Argentina aproximadamente 100 indivíduos de alta renda.
Por outro lado, países como Costa Rica (350), Panamá (300), Ilhas Cayman (200) e Bermudas (50) atraem a chegada de milionários, consolidando-se como novos centros de acúmulo de riqueza.
Esse fenômeno demonstra que fatores econômicos e políticos domésticos estão diretamente relacionados às decisões da elite. A percepção de risco e a transferência de capital enfraquecem o país estruturalmente.
Em síntese, o Brasil enfrenta um desafio crescente: a saída acelerada de milionários retira não apenas recursos financeiros, mas também talentos e confiança, prejudicando o desenvolvimento sustentável e a competitividade do país.

